Trash
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Trash

Luiz Zanin Oricchio

09 de outubro de 2014 | 18h54

 

Encontro tanto problemas como qualidades em Trash, de Stephen Daldry.

No Brasil, o filme ganhou o subtítulo de A Esperança Vem do Lixo, o que reforça nossa tendência para a ênfase, a redundância, a explicação reiterada, para que o espectador, suposto pouco inteligente, compreenda a “mensagem”.

Não era para tanto, pois se recado existe, ele está bem explícito e não precisa cartilha para ser entendido. Os heróis da trama são os três moleques, que acham uma carteira no lixão, e desvendam, como sherloques infantis, toda uma trama envolvendo corrupção e tráfico de influência entre policiais.

Há, então, em Trash, esse desejo de destacar algumas das mazelas do País e colocar, por contraste, em relevo, quem são os verdadeiros heróis – os pobres, os favelados, os despossuídos, que suam para sobreviver e, com muita garra, inteligência e criatividade, acabam triunfando sobre  desvantagens ancestrais.

Existe, também, o desejo de fazer desse angu sociológico uma espécie de thriller rápido, que jamais corra o risco de aborrecer o espectador com reflexões inúteis. Afinal, o enredo de fundo (pobres se virando contra o mundo adverso) é bem conhecido e o negócio é destacar o enredo de frente. Ou seja, uma grande aventura infantil de caça ao tesouro, muito veloz e cheia de perigos, com a perseguição aos garotos comandada pelo implacável Frederico Gonz (Selton Melo), a soldo do corrupto político Santos (Stepan Nercessian).

O lado estrangeiro da trama é representado por um padre caridoso (Martin Scheen) e uma professora idealista, Olivia (Rooney Mara), filiada a uma ONG que tenta ensinar inglês numa escola da “comunidade”.

Isso para dizer que, a todo tempo, Trash fica próximo das fronteiras do clichê. E não raro a atravessa. Mas encontra remédios para voltar a um tom mais interessante e menos previsível. Por exemplo, o padre Julliard, de Martin Sheen, por seu humor e irreverência salva-se da carga de idealismo estereotipado que lhe pareceria inevitável.

Da mesma forma, os três garotos escapam rapidamente dos papeis de coitadinhos e vítimas da miséria para assumirem o protagonismo da história – e de suas próprias vidas. São eles, de qualquer forma, o trunfo maior de Trash. Pela agilidade, malandragem e ginga conquistam o público com facilidade. Tudo é feito para que a plateia jogue com eles, mas é preciso admitir que foram muito bem escolhidos. Casting é tudo nesse tipo de filme.

Dessa forma, se não é em nada reflexivo, Trash embala seu produto de maneira bem agradável. É um passatempo interessante, e isso não deve diminuí-lo. Nem sempre o cinema precisa se obrigar a uma austeridade monacal para ser levado a sério. Essa obrigação é um pouco o pensamento adolescente tanto de cineastas iniciantes quanto de uma parcela da crítica que, ela também, se leva excessivamente a sério. Coisas da idade, que se corrigem com o passar do tempo.

Daldry joga mais na nota do público, como sabe quem conhece seus trabalhos anteriores – Billy Eliot, As Horas, O Leitor e Tão Forte e Tão Perto. Cinema de qualidade, com protagonistas que buscam a emoção do público, mas de maneira discreta, sem chantageá-lo. Não é de modo algum uma trajetória descartável, embora tampouco se possa classificá-la de notável.

O brazilian touch dá, talvez, uma vitalidade adicional a este novo filme. Ela vem, com certeza, em especial de Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein, que interpretam os moleques Rafael, Gardo e Rato. No balanço geral de virtudes e defeitos, Trash ficaria em posição intermediária, de regular para um pouco mais. Com os meninos, torna-se bom.

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