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Transformers: desafio à crítica

Luiz Zanin Oricchio

23 de julho de 2007 | 09h46

Escrever sobre produtos como Transformers é um desafio e tanto pois não há como enquadrá-los em categorias críticas conhecidas. Não dá para falar em elenco, fotografia, montagem, roteiro, textos ou subtextos. No limite, nem cinema eles são. E o que são? Eventos, entretenimento, reciclagem de gadgets, só que feitos para as salas de exibição. Seria como fazer a crítica de uma roda-gigante, uma montanha-russa, uma linha de brinquedo novo, artefatos assim. São pré-culturais, ou a-culturais, por assim dizer. Não se veja aí qualquer elitismo, apenas a constatação de que pertencem a domínios diferentes.

Veja-se a própria origem de Transformers – brinquedos e série de TV sobre máquinas de todo o tipo, em especial automóveis e helicópteros, que se metamorfoseiam em robôs alienígenas. A idéia parece tão infantil que surpreendeu e criou hesitação até mesmo em um diretor como Michael Bay, cujos pontos altos do currículo – vejam só – são Pearl Harbour e Armageddon.

O ponto em que essa, digamos assim, ‘idéia’ se encontra de leve com o mundo do cinema é através da matéria narrativa. Quer dizer, da historinha, na qual dois jovens, Sam (Shia Labeouf) e Mikaela (Megan Fox) entram na disputa entre dois grupos de robôs alienígenas, os do bem e os do mal, pela posse de um artefato que pode colocar em risco a existência da humanidade. Por aí se vê que, sob esse aspecto, Transformers não irá pecar pela originalidade.

Esse é o fiapo de história em torno do qual se constrói o que de fato interessa – os efeitos especiais, a pauleira, sobretudo as exaustivas lutas entre os tais robôs do bem e do mal, maratona que se arrasta por infindáveis 144 minutos. Os efeitos hoje são facilitados pela computação gráfica, que cobra seu preço em artificialidade.

Uma saída possível para tanta tolice seria pelo humor, pela auto-ironia, e deve-se reconhecer que Bay flerta com o cômico uma ou duas vezes. Fazer de alguns robôs seres engraçados é sacada velha (veja Guerra nas Estrelas) e sempre funciona. Mas é óbvio que a produção receou radicalizar nesse sentido. Supõe que a platéia-alvo leva tudo isso muito a sério e não se arrisca a decepcioná-la. Afinal, há muitas centenas de milhões de dólares em jogo. E isso sim é coisa muito séria.

(Estadão, Caderno 2, 20/7/07)

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