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Tradição alvinegra

Luiz Zanin Oricchio

22 de abril de 2009 | 21h06

Enfim, chegamos a uma final alvinegra, contrariando a maioria dos prognósticos, que davam Palmeiras e São Paulo como favoritos. E quem pode censurar os autores dessas profecias? Não é pelo fato de elas não terem se realizado que devemos dizer que estavam erradas…quando foram feitas. Estamos habituados a ter o São Paulo como favorito prévio em todas as disputas de que participa. Algum engano nisso? Nenhum: basta olhar o retrospecto do atual tricampeão brasileiro. Time duro, pragmático, bem treinado, administrado de maneira profissional, etc. Era (ou é) o clube mais bem adaptado aos novos tempos do futebol brasileiro.

Já o Palmeiras foi aquele que mais investiu, tem um presidente de nível intelectual superior, manteve o ótimo técnico, dispõe de jogadores muito bons, incluindo aquele que esteve até pouco tempo na moda – o K-9. Mais do que tudo: na prática, era o time que, logo no começo do ano, encantava a todos que gostavam do futebol bem jogado. Leve, liso e solto, como gosta seu treinador, além de devidamente equilibrado para enfrentar disputas e vencê-las. Ao longo do tempo, o Palmeiras veio perdendo a chama e já não arrancava suspiros. Mas, esperava-se que, ao chegar à fase decisiva, a luz voltaria.

No entanto, a dureza pragmática do São Paulo e o charme do Palmeiras foram vencidos pela constância do Corinthians e a súbita inspiração do Santos. E daí? Os dois clubes continuam na Libertadores – o São Paulo com a vida encaminhada na primeira fase, o Palmeiras ainda com esperanças, porém por um fio.

Mas, enfim, estão na Libertadores, que é o sonho de consumo de todos. O que não quer dizer que não gostariam muito de disputar a final desse antigo e controvertido Campeonato Paulista. Pode-se chamá-lo como se queira, Paulistão, Paulista ou Paulistinha, mas todo time grande deseja vencê-lo. Basta observar a reação dos torcedores na arquibancada e dos jogadores no campo. Ou, por acaso, essas partidas semifinais se pareceram a jogos amistosos?

Pelo contrário: os finalistas saíram de partidas de ótimo nível – a melhor de todas a primeira entre Santos e Palmeiras. Foram jogos emocionantes, cheios de suor e sabor, com lances de qualidade, duelos táticos interessantes e alguns destaques individuais. Neymar resolveu os dois jogos para o Santos; Ronaldo fez a diferença para o Corinthians, em especial na segunda partida contra o São Paulo. Têm novo encontro marcado.

Na primeira vez em que Ronaldo e Neymar se encontraram, houve muita badalação pelo primeiro duelo entre o veterano consagrado e o garoto em ascensão. Ambos estiveram apagados. Agora a história pode ser diferente. Mas esse é apenas um dos atrativos desse duelo duplo entre Corinthians e Santos. Durante a semana vai se falar muito sobre a tradição desse clássico. Serão citados jogos antológicos, o tabu, a quebra do tabu, fases de supremacia de um e de outro, as goleadas, as decisões, Pelé e Rivellino, etc. É assim mesmo. A história deve ser evocada – que não seja por outro motivo para lembrar às novas gerações de que a vida não começou ontem e outras, antes delas, já viveram, sonharam, sofreram e se alegraram. Se chamamos clássico a um encontro entre grandes é porque ele tem um enorme passado atrás de si.

Agora, quando a bola começar a rolar, o passado cederá lugar ao presente. Não existem favoritos na longa história de Corinthians x Santos, cujos novos capítulos serão escritos nos próximos domingos, para, em seguida, serem incorporados à tradição.

(Coluna Boleiros, 21/4/09)