Top Models: o avesso do mundo fashion
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Top Models: o avesso do mundo fashion

Luiz Zanin Oricchio

23 Junho 2011 | 19h58

Top Models – Um Conto de Fadas Brasileiro, de Richard Luiz, passa perto de ser um filme bem-sucedido. A proposta de base é muito boa: entrevistar algumas das mais famosas modelos brasileiras e ouvir o que têm a dizer sobre a profissão. Na verdade, são convidadas a falar sobre a vida, o que resulta curioso pois se trata de métier incomum e, portanto, de biografias originais.

Elas começam meninas, enfrentam concorrência voraz, mudam-se cedo para o exterior, ganham muito dinheiro quando bem-sucedidas, enfrentam problemas com a balança e sabem que a carreira é curta. No fundo, têm trajetórias muito semelhantes às dos jogadores de futebol. Com a diferença de que são muito mais bonitas, para ficar apenas no campo das distinções óbvias. Ou alguém tem dúvida disso ao ver na tela Giselle Bündchen, Shirley Mallman, Carol Trentini, Isabeli Fontana e Raquel Zimmerman, entre outras?

Com um time desses, o filme procura ser mais expositivo que investigativo. Uma narradora em off, Alice Braga, apresenta-se como repórter. Diz que tem de ir atrás de histórias nunca antes contadas. E que, se já contadas, precisa encontrar meio de narrá-las de modo original. Talvez por isso fiquemos esperando por alguma coisa que o filme não nos entregará na ponta do balcão.

A estratégia é entrevistar o maior número possível de modelos e de outras pessoas envolvidas no mundo da moda: figurinistas, fotógrafos, maquiadores, etc. Enfim, todos os que compõem o circo fashion. Necessário dizer que não existe qualquer conotação pejorativa no emprego da palavra “circo”. Assim como não há quando se fala de circo da Fórmula 1, do futebol, do cinema, etc. Mas seria preciso uma alma de Fellini para flagrar a essência desse mundo.

Em Top Models, ouve-se muito as pessoas. Talvez fosse mais produtivo observá-las melhor. Ao falar, as pessoas podem se defender mais facilmente do que quando agem ou interpretam seus papéis sociais e profissionais. Palavras revelam e escondem. Assim, não se consegue evitar que as modelos falem mais platitudes ou obviedades do que seria desejável. Claro, pode-se objetar que mesmo banalidades podem dizer muito sobre a pessoa que as enuncia. Mas também é fato que muitos aspectos importantes são deixados de lado, ou tocados de raspão. Por exemplo, uma das moças, morena, fala do predomínio das loirinhas de olhos azuis, para as quais tudo é mais fácil do que para negras, índias e “étnicas”.

Essa conclusão se impõe quando vemos o absoluto predomínio das deusas louras provenientes do sul do País. O Brasil da passarela é louvado por sua diversidade, molejo, rebolado. Mas diversidade é o que menos se vê no mundo fashion. Outro assunto logo engavetado é a ditadura da magreza e a sua consequência, a anorexia mortal. Tema abordado, e logo varrido para debaixo do tapete.

Com essas insuficiências, ainda assim Top Models desvenda bastidores interessantes. Mas revela muito menos do que espera o espectador mais exigente.

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