Ainda Tony Curtis
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Ainda Tony Curtis

Luiz Zanin Oricchio

30 de setembro de 2010 | 14h08

Morreu ontem, aos 85 anos, o ator norte-americano Tony Curtis. Nascido no Bronx em 3 de junho de 1925, filho de imigrantes húngaros judeus, seu verdadeiro nome era Bernard Schartz. Nas suas memórias de infância, conta que teve de brigar muito com os garotos de rua para impor sua masculinidade, posta em dúvida em razão de sua beleza.

O que lhe causou problemas na infância, serviu-se de trunfo para ingressar na carreira artística. Com seus olhos azuis e cabelos crespos, ajustava-se a um tipo de beleza masculina um tanto efeminada que entrou na moda nos anos 1950. Mesmo assim, levou alguns anos para ser levado a sério na indústria. Trabalhou em O Príncipe Ladrão (1951) e O Filho de Ali Babá (1952) sem grandes repercussões. Seu amigo Burt Lancaster o recomendou a outros filmes, como Trapézio e Embriaguez do Sucesso. Mas foi em 1958, em Acorrentados, de Stanley Kramer, que Tony conseguiu uma indicação ao Oscar. É uma das suas melhores atuações, contracenando com Sidney Poitier. Perdeu a estatueta para David Niven.

No ano seguinte, no entanto, Tony estaria no filme pelo qual será sempre lembrado. Ao lado de Jack Lemmon e Marilyn Monroe, protagoniza Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, considerada pelos críticos como uma das melhores comédias de todos os tempos. Há uma sequência antológica, um das mais eróticas da história do cinema, quando o personagem de Tony deixa-se seduzir por uma esfuziante Marilyn. A sequência é toda montada em paralelo com imagens de um tango dançado por Jack Lemmon disfarçado de mulher nos braços de um conquistador. É genial.

Também é muito boa a sua participação em Spartacus (1960), de Stanley Kubrick, no papel de um belo escravo cobiçado por um senador romano interpretado por Laurence Olivier. Contracenar com Olivier não era para amadores, mas pode-se dizer que Tony Curtis não faz feio. Pelo contrário. No caso, sua beleza também o ajuda, pois trata-se de uma situação que pede ambigüidade sexual. Em 1961 consegue sua segunda indicação ao Oscar em The Outsider, de Delbert Mann, mas novamente é derrota.

Grandes filmes, como os dois citados foram antes a exceção do que a regra na longa e produtiva carreira de Tony Curtis, cujo currículo conta com mais de 150 participações em filmes. Um Amor do Outro Mundo e Médica, Bonita e Solteira são exemplos dessas produções, feitas para serem consumidas e depois descartadas. Uma, no entanto, se destaca, e por seu caráter de exceção. Em O Homem que Odiava as Mulheres (1968), Tony interpreta um papel contrário ao seu estereótipo de beleza masculina. Para interpretar o famigerado estrangulador de Boston, teve de colocar uma prótese em seu nariz, para enfear-se, o que provocou desagrado no público feminino. O filme de Richard Fleischer, no entanto, é bem cotado.

Como quase todo galã, Curtis sofreu com a chegada da meia idade. Os cabelos começaram a rarear e já não cumpria os requisitos estéticos do cinema de Hollywood. Nos anos 1970 tentou a televisão na série The Persuaders, que chegou a fazer bastante sucesso e foi exibida no Brasil. Conheceu a depressão e teve de se submeter a vários tratamentos de desintoxicação. Drogas e álcool lhe serviam de consolo para as dificuldades profissionais e pessoais. Teve seis casamentos, entre os quais aquele com Janet Leigh. Dessa união, nasceu a também atriz Jamie Lee Curtis.

Preso à memória dos anos 60, Tony Curtis ainda trabalhou num musical inspirado em Quanto Mais Quente Melhor, mas não no papel que tem no filme e sim no do milionário interpretado por Joe E. Brown na obra de Billy Wilder.

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