Tomboy
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Tomboy

Luiz Zanin Oricchio

13 de janeiro de 2012 | 17h16

 

Difícil fazer um filme afirmativo sobre o direito à diversidade sexual sem cair no proselitismo ou no moralismo às avessas. Em termos de dramaturgia, Tomboy faz a coisa parecer bastante simples (mas, obviamente, não é). A trama se resume numa linha. Laure (Zoé Héran) é uma garota que se muda para um bairro novo e começa a se passar por menino. Com seu cabelo à la garçonne, seu gosto por esportes e disposição para enfrentar desafetos mais fortes, não tem dificuldade em se impor diante da turma. Ensaia até mesmo um flerte com Lisa (Jeanne Disson), a menina mais desejada da turma da rua.

Com esses poucos elementos, a diretora Céline Sciamma ganha a cumplicidade do espectador para discutir o tema da definição do corpo próprio na fase pré-adolescente (a personagem tem 10 anos de idade). Como dizia Simone de Beauvoir, não se nasce mulher; a mulher se cria, é construída pela cultura e pela educação. E, se Freud afirmava que anatomia era destino, nem por isso esse desígnio biológico se cumpre como um fato da natureza, sem angústias e violências, como sabemos todos. Todas essas dificuldades são insinuadas e discutidas nessa história singela e sem qualquer apelação.

Há um dado interessante na equação dramatúrgica. Laure, que diz se chamar Mikaël, coloca-se numa posição que, de fora, se sabe insustentável. A qualquer momento poderá ser desmascarada, mesmo que seja bastante inteligente para montar estratégias espertas de disfarce. A sua figura carismática, aliada a essa fragilidade que mora no centro do cristal, criam esse elo com o público.

O espectador torce por ela, para que consiga levar a sua farsa até não se sabe onde. E fica encantado quando Laure consegue a cumplicidade inesperada de sua irmã pequena, Jeanne (Malonn Lévana), uma criança encantadora, maliciosa, inteligente, e igualmente carismática.

Há, claro, uma primeira oposição entre o mundo das crianças e o dos adultos, mas ela não vai muito adiante. A cineasta não cai na armadilha de pintar os pais como modelos de intolerância e incompreensão contra as inocentes criancinhas. Pelo contrário. Se, numa cena determinada, a mãe parece levada por um impulso de truculência, é no ambiente infantil que Laure enfrentará seus maiores desafios. Esse mundo da infância é retratado sem qualquer idealização. Nele há inveja, maldade, rivalidade e a matriz da competição que, desenvolvida, levará à antiética catastrófica do mundo adulto contemporâneo. O que se pode dizer é que, em embrião, tudo já estava lá, na infância, fase que nada tem da inocência com que a pintam.

Céline filma com frescor pouco comum. Opta pelo simples, tanto em termos de câmera como de diálogos. As cenas são ambientadas de preferência no campo, com as crianças jogando bola em terrenos baldios e nadando no rio. Um ar campestre, com cenas longas, nas quais a diretora desenvolve a história sem qualquer pressa aparente. Como se estivesse livre das pressões do tempo para poder jogar com os elementos-chave do conflito central, que é o da sexualidade de Laure. Uma sexualidade, diga-se, ainda indefinida, a ser construída, ainda por fazer.

Sensível e despojado, Tomboy diz tudo o que é preciso sobre o assunto, sem desperdiçar uma única imagem e sem jogar qualquer palavra fora. O espectador, cansado de filmes empetecados e se alma, agradece.

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