As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tom Zé, a usina de sons e idéias

Luiz Zanin Oricchio

14 de julho de 2007 | 11h38

Você olha para Tom Zé e ele não tem muito jeito de um mestre. Para retomar a distinção de Pound, ele fica melhor como um inventor. É, talvez, o mais criativo dos músicos brasileiros, ou pelo menos um dos mais. Acontece que, durante muito tempo, o Brasil não soube disso. Discreto, Tom Zé mergulhou em seu silêncio particular e dele saiu apenas quando um norte-americano, David Byrne, disse algumas coisas muito óbvias a seu respeito, como ser Tom Zé uma exceção entre os criadores contemporâneos e dono de obra universal. Como Byrne disse tudo isso em inglês, foi ouvido com atenção no Brasil. O documentário Fabricando Tom Zé, de Décio Matos Jr., faz parte dessa corrente de redescoberta e revalorização de um grande artista.

O filme acompanha Tom Zé em sua intimidade, mas, sobretudo, durante uma turnê européia. Vai a Irará, no interior baiano, onde o compositor nasceu e se criou. Ouve algumas (poucas) personalidades ligadas à vida do músico, como Caetano e Gil, seus companheiros de tropicalismo, o crítico Tárik de Souza, o poeta Arnaldo Antunes, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras, do grupo Corpo. Mas o mais interessante é sempre Tom Zé, sua particular relação com as outras pessoas, com os sons, com o mundo.

Em conversa com o Estado, Tom Zé disse que a filmagem foi muito tranqüila: “Eles (a equipe) são rapazes muito jovens, simpatizei demais com eles, e o Décio tem uma qualidade importante, ele desaparece junto de você. Quer dizer, está lá, te filmando e você acaba nem se dando conta disso”, diz. Melhor assim, pois Décio e sua equipe conviveram longamente com o músico e sua banda. A ponto de terem 30 horas de material gravado, que tiveram de reduzir a um longa-metragem de 89 minutos.

A intimidade chegou a tal ponto que o cineasta pôde registrar os bons momentos, a excelente receptividade em alguns shows europeus, mas também alguns percalços e mesmo uma gloriosa saia-justa – a briga de Tom Zé com um técnico de som suíço em Montreux. “O mais importante nem foi tanto ele ter pego aquela cena toda”, diz Tom Zé, “mas tê-la montado de um jeito particular, com um crescendo de emoção muito grande e de efeito”, diz.

De fato, a cena é forte, ocupa posição central no filme e se torna muito reveladora. Nela, vemos o músico brasileiro insatisfeito durante a passagem de som e um técnico suíço que, de forma arrogante, exige que ele defina “as freqüências que não estão funcionando e pare com o blábláblá”. Literalmente, Tom Zé peita o rapagão sarado e enfeixa um discurso interessante sobre as relações entre Brasil e Primeiro Mundo. “Eles não podem é agir de uma maneira vil conosco”, resume. Para Tom Zé, os europeus têm toda a saúde do mundo, todo o dinheiro, toda a tecnologia e, mesmo assim, “precisam importar a nossa música, a nossa criatividade, sem a qual o festival deles não vive”.

Essa relação do nacional versus o internacional foi uma das pedras de toque do movimento Tropicalista. E esse é também um dos subtemas desenvolvidos no documentário. Quando o Tropicalismo Explode, no final dos anos 60, Tom Zé se encontra no olho do furacão do movimento. Com o agravamento da ditadura, Caetano e Gil seguem para o exílio em Londres, voltam anos depois, enquanto Tom Zé vive em seu ostracismo paulistano. Houve quem o chamasse de “enterrado vivo no espólio do tropicalismo”.

Reavaliando o episódio, Tom Zé procura ser justo com Caetano e Gil. “Em São Paulo, que é uma cidade oriental, você aprende que quando um amigo está colocando a sua vida em risco, você não vai tentar salvá-lo, senão os dois morrem abraçados”, diz, de maneira alegórica. E, sendo mais preciso: “Eu mesmo fui culpado pelo ostracismo, eu precisava dele, como Joyce, o autor de Ulisses, precisou atravessar o dele.” Aliás, ajunta, o próprio Ulisses da mitologia grega precisa cumprir suas etapas para voltar a Ítaca, sua cidade natal.

O que ninguém poderia esperar é que Tom Zé saísse desse isolamento com uma obra surpreendente. Uma obra que ele ficou cozinhando em sua solidão e que, caindo nos ouvidos de David Byrne, o tornaram um dos músicos experimentais reconhecidos internacionalmente.

Lembrando os anos 60, Tom Zé pede para que as pessoas sejam justas com Caetano e com Gil. “Ninguém pode tirar deles o mérito de, durante a ditadura, ter mantido no País uma certa efervescência de pensamento; e isso é fundamental, porque qualquer regime autoritário teme o pensamento livre.” Tom Zé recorda que no momento em que a própria esquerda, de onde se esperava que viesse a renovação, se fechava num nacionalismo obtuso, eram os tropicalistas, Caetano e Gil à frente, que já tentavam antenar o País com a chamada 2ª Revolução Industrial, esta mesma que vivemos hoje com tanta intensidade.

Continua antenado nessa, Tom Zé? Com certeza, mas como brinca no filme sua mulher, Neusa, por outro lado, ele nunca saiu de Irará. Todo Ulisses que se preza precisa de uma Ítaca, nem que seja virtual.

Síntese da alta cultura e do legado de Irará

Os filmes sobre música estão surgindo por aí e fazendo seu caminho: Cartola, Maria Bethânia – Música É Perfume e, agora, Fabricando Tom Zé. Não se trata de um lançamento modesto, pelo menos para padrões de documentário. Distribuído pelo grupo carioca Estação Botafogo, entra em 12 salas entre São Paulo, Rio, Brasília e Belo Horizonte. Logo em seguida, chega a Salvador e outras praças. É uma aposta. Veremos qual a resposta do público.

Fabricando põe em cena um artista singular, quase inclassificável, como diz em depoimento sua mulher, Neusa. Em que compartimento colocar Tom Zé? Na gaveta tropicalista, da qual ele cedo saiu? Em que linha evolutiva da MPB?

Quando se pergunta a Tom Zé sobre suas raízes, sobre sua formação, ele cita o cineasta francês Alain Resnais sobre a matriz de definição da personalidade, que se daria entre o nascimento e os 2 anos de idade. E aí então temos os sons da infância, os poetas, os cantadores, a influência provençal na cultura ibérica do Nordeste profundo (vide Ariano Suassuna).

Vinte anos depois, a vanguarda na Faculdade de Música de Salvador, sob as ordens de Hans-Joachim Koellreuter. E, em seguida, a São Paulo dos concretistas Décio Pignatari e os irmãos Campos, e dos maestros Rogério Duprat e Julio Medaglia. Por intermédio de Pignatari, Tom Zé estuda Peirce e a semiologia. Esse substrato cultural está integrado em sua obra. Está em Estudando o Samba, o disco que David Byrne escutou e o deixou pasmo, pois não conhecia nada parecido. Era uma síntese da alta cultura com o legado de Irará.

Fabricando Tom Zé consegue captar um pouco desse misterioso processo do artista em contato consigo mesmo e com suas influências no trabalho de compor uma obra. Por exemplo, quando conversa com um dos músicos de sua banda e o surpreende ao dizer que, durante algum tempo, sua obsessão eram as modulações, quer dizer as variações de uma tonalidade a outra ao longo do sistema tonal. Esse lado, digamos, matemático e rigoroso, convive com o artista que sabe da importância do acaso na criação. ‘Se começa a chover, se um avião passa, isso deve entrar na música’, diz a uma certa altura. A música é uma visão de mundo

‘Assistir ao show dele foi uma experiência única’

Décio Matos Jr. mal tinha ouvido falar de Tom Zé quando foi a um show do músico, no final dos anos 1990. Saiu transformado. ‘Foi uma experiência única, performática, comprei os discos disponíveis e me apaixonei pelo personagem’, disse ao Estado.

Na época, Décio morava nos Estados Unidos. E, junto com um amigo, Daniel Erdos, resolveu fazer um documentário sobre os músicos brasileiros no exterior. Chama-se Bossa no Exílio e continua inédito, entravado por causa de direitos autorais. Uma das pessoas contatadas para dar depoimento nesse projeto até agora engavetado foi Tom Zé. ‘E, de longe, o depoimento dele foi o melhor de todos’, diz Décio. Surgiu assim a idéia de fazer um filme apenas com ele. Com o que Tom Zé concordou prontamente.

Décio e sua equipe passaram a acompanhar o músico e, sobretudo, estiveram presentes em sua turnê européia de 2005, que funciona como eixo narrativo do filme. ‘Pudemos ver shows nos quais tudo saiu perfeitamente e outros não tão bem-sucedidos assim (como o de Vienne, na França). Viram aquele momento tenso da briga em Montreux. E também quanto de perseverança e dedicação se ocultam por trás de toda a improvisação exibida no palco. ‘Nessa situação tão próxima, você vê coisas que não percebia antes, as inseguranças do artista, e também a comovente preocupação que ele tem com sua arte’, diz.

(Estadão, Caderno 2, 13/7/07)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.