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Tolstoi – Estação Terminal

Luiz Zanin Oricchio

22 de agosto de 2009 | 10h05

Um bom romance histórico dá forma dramática a fatos efetivamente ocorridos. Trabalha, também, com senso arqueológico, reconstruindo o que não pode ser comprovado mas é tido como provável. Apoia-se em documentos e em outros livros. Completa o material, imaginando diálogos ou pensamentos dos personagens, mesmo que estes não tenham sido registrados em provas documentais. É uma arte do provável e, quando bem sucedida, pode desvelar um acontecimento, ou um personagem de forma tão completa quanto possível. Pode ser um complemento aos livros de história, ou às biografias. É o caso deste A Última Estação – os Momentos Finais de Tolstoi, de Jay Parini. Ele fornece um interessante painel do que deve ter sido o último ano de vida do grande romancista de Guerra e Paz e Anna Karenina.

Em seu posfácio, Parini admite que faz ficção, mas a partir de um certo aparato biográfico. Em um sebo da Nápoles, descobriu um diário de Valentin Bulgákov, relatando sua convivência com Tolstoi no último ano de vida do escritor. Em seguida, descobriu que outros diários do círculo íntimo de Tolstoi também procuravam descrever o que fora o dia a dia daquele ano final, 1910, em Iásnaia Poliana, a propriedade rural de Liev Nikoláievitch Tolstoi. Leu diários e memórias do amigo e confidente Vladímir Tchertkov, dos filhos Tânia e Sasha, da esposa Sofia Andrêievna Tolstoia e muitos outros mais. Como diz um dos personagens em certo trecho do livro, em Iásnaia Poliana até os copeiros pareciam manter diários íntimos. Todo mundo escrevia, contando suas impressões, e sempre em relação ao grande homem, que se preparava para entrar na posteridade.

Tendo em mãos esse material, Parini construi um perfil multifacetado de Tolstoi. Quer dizer, um personagem visto não apenas por ele próprio, mas a partir dos olhares dos que com eles convivem. E, diga-se, não se trata de uma convivência pacífica. Há ciúmes, rivalidades, interesses antagônicos, brigas pelo espólio, reivindicações tanto justas como injustas. O próprio Tolstoi parece muito perdido em meio ao turbilhão causado pelas pessoas que em torno dele orbitam. A partir desses retratos cruzados vê-se Tolstoi como uma figura construída em mosaico, e revelam-se também as personalidades dos que com ele convivem.

Por exemplo, Sofia Andrêievna, ou Sônia, compreensivelmente uma figura central, é vista às vezes como pouco menos que uma megera, até por ela mesma. Seu casamento com o escritor tem 48 anos e deu origem a 13 filhos. Há uma diferença muito grande de idade entre os dois. Tolstoi chega aos 82 anos, enquanto sua esposa tem 66. Quando casou-se, era uma mocinha de 18 anos e ele um homem já maduro e famoso. Todo o relato desse casamento passa pelo livro, inclusive se referindo ao proverbial furor sexual do escritor. Segundo a descrição de Sônia, Tolstoi, um pregador do ascetismo na velhice, fora um devasso na juventude, um rei dos bordeis e insaciável. Mesmo agora, em idade provecta e próximo da morte, conserva uma libido difícil de administrar. Pena, segundo Sônia, que ela estaria agora mais voltada a seu discípulo Tchertkov que às mulheres. A alusão a esse impulso homossexual do escritor passa, como um futrico insistente, por várias das páginas do livro, e sempre na boca (ou na pena) da esposa enciumada.

E também insegura, pois trava-se, em torno da morte iminente, uma disputa às vezes nada elegante, por seu espólio. Acontece que Tolstoi, fundador de uma doutrina do desapego aos bens materiais, vive rodeado por uma família acostumada às regalias de uma propriedade rural cheia de empregados e com todos os confortos. É uma contradição terrível, e a principal angústia de Tolstoi. Ela toma corpo na disputa pelo destino dos direitos autorais. As obras mais vendáveis estão sob controle de Sônia, mas existe um plano para mudar o testamento e deixar todos os seus livros em regime de domínio público, acessíveis a cada mujique da Rússia, segundo deseja o autor. Sônia luta como uma leoa para que isso não aconteça, o que de certa forma a transforma em vilã. Essa contradição de Tolstoi e seu desfecho formam a principal linha dramática das 412 páginas do romance como o tema que lhe confere maior interesse e tensão.

Dessa maneira, o livro poderia ter se transformado em folhetim – “a mulher má e ambiciosa contra o asceta generoso” – não tivesse Parini tomado alguns cuidados. Um deles está na própria forma do livro, na narrativa coral em que cada capítulo é identificado pelo nome de quem fala. Essa opção estilhaçada de narrar opõe-se à formação de estereótipos. O outro, na maneira matizada de tratar os personagens, incluindo Tolstoi, a partir mais de suas contradições que de suas certezas. Estas, na vida e na literatura, são frágeis e provisórias. Não seria diferente mesmo com um gigante como Liev Nikoláievitch Tolstoi.

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