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Tolerância zero

Luiz Zanin Oricchio

05 de junho de 2012 | 12h18

 

Amigos, andei defendendo neste espaço a ideia de que o principal desafio da seleção brasileira era romper a barreira de indiferença criada em relação a ela.

Há muito tempo a seleção não nos comove – pelo menos não tanto quanto o fazia 20 ou 30 anos atrás. Todo mundo sabe de cor os motivos: a globalização da bola, que fez os principais jogadores emigrarem prematuramente; as opções da CBF em tornar a seleção uma atração mundial a ser exibida nos palcos internacionais e nunca em seu país; as más seleções, cheias de jogadores indiferentes e acomodados, ricos como potentados do petróleo, nem um pouco preocupados em honrar a camisa, mesmo sendo a famosa amarelinha de que fala Zagallo. Por fim, mas não menos importante, o abandono do estilo de jogo no qual nos reconhecemos, a tal ginga brasileira, o futebol-arte, ou como quiserem defini-lo.

Por algum motivo, ou por vários, essa seleção de jovens, que se prepara para a Olimpíada em Londres, vinha conseguindo romper a tal barreira da indiferença. Parece até prematuro dizer isso, mas eu, mais antenado em conversas de botequim que nos métodos científicos das sondagens de opinião, pressentia um interesse renascido na seleção a partir das duas belas vitórias sobre a Dinamarca e os Estados Unidos.

E não é que, com uma singela derrota diante do México, tudo volta à estaca zero? Toda a desconfiança, todo o desprezo mesmo, enrustido e reprimido, explodem em comentários azedos e manchetes catastrofistas. Já se procuram bodes expiatórios. Mano não soube adaptar a tática ao adversário. Neymar murchou sob a marcação cerrada. Leandro Damião decepciona mais uma vez. Hulk só tem uma jogada, Marcelo é voluntarioso demais… De repente, o escrete afunda na mais turva mediocridade, esmagado pelos astecas.

Ora, ora, vamos ter senso de proporção. Devemos constatar que o time não jogou bem mesmo. E como saíram os dois gols do adversário? De um cruzamento errado que virou gol de placa (só no futebol um equívoco torna-se obra-prima) e de uma infantilidade de Juan, que cometeu pênalti desnecessário. O Brasil pressionou de forma desordenada, foi apressado demais, abusou de jogadas individuais quando não era a hora, etc. Daí a dizer que o time é um fracasso vai uma distância enorme.

Essa nova seleção tem alguns elementos favoráveis para restaurar a paixão do torcedor. A primeira delas é a presença de um número considerável de jovens que jogam no Brasil e são ídolos em suas equipes. Mesmo os “europeus” são moços e promissores. Não estão ainda marcados por episódios negativos, como alguns veteranos. E, acima de tudo, essa seleção vinha jogando com alegria, disposição e espírito de grupo como há muito não se via. Reconhecíamos, nos últimos jogos, um estilo que era o nosso. Moderno, porém ligado às nossas raízes. Daí a disposição favorável do distinto público que é, afinal, o destinatário do espetáculo e sua razão de ser.

E daí o meu espanto com esse clima de “tolerância zero”, de cobrança forte e implacável, que só tende a aumentar em caso de novo fracasso – e desta vez contra a arquirrival Argentina.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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