Tokiori – o sentido poético da memória
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Tokiori – o sentido poético da memória

Luiz Zanin Oricchio

22 de novembro de 2013 | 14h51

 

Memórias da imigração são sempre muito comoventes. Ainda mais quando tratadas com a sensibilidade empregada por Paulo Pastorelo neste belíssimo Tokori – Dobras do Tempo. A entrevistas com personagens, o autor mescla seu depoimento pessoal, cartas, filmes e músicas para compor o painel da imigração japonesa ao Brasil, em particular ao São Paulo. Seu foco são cinco famílias estabelecidas no bairro de Graminha, distrito do município de Oscar Bressane, no Oeste paulista, a cerca de 500 quilômetros da capital.

O, digamos assim, pivô da história é Yoshie Sato, que chegou ao Brasil aos nove anos de idade, acompanhada dos pais e irmãos. A família chegou a Graminha em 1936 e, através de uma série de casamentos, seu uniram em parentesco às famílias fundadoras do bairro, os Yanai, Yoshimi, Funo e Okubo.

Aos poucos, a memória da imigração vai se estabelecendo através dos elementos reunidos pelo diretor. Em especial, pelo vai e vem que se estabelece entre Brasil e Japão quando o fluxo de migração se inverte e muitos brasileiros, descendentes de japoneses, seguem para a terra dos ancestrais em busca de uma vida melhor. Exatamente o que havia motivado esses ancestrais a procurarem uma terra tão distante e improvável como o Brasil.

Pelos depoimentos dos mais velhos, temos um retrato de como nos viam. Uma terra ignota, selvagem, incompreensível. Uma vez estabelecidos, afloram alguns preconceitos, como o de que o “brasileiro não gosta de trabalhar”. Por outro lado, a incorporação inevitável dos costumes locais, o feijão com arroz cotidiano à mesa. São experiências contraditórias, cruzadas, daquele sentimento que os franceses descrevem como dépaysement – a falta de solo na ausência do país de origem e das suas referências culturais.

Alguns fatos notáveis emergem em meio às lembranças banais do cotidiano. A guerra e suas consequências, quando os japoneses (assim como italianos e alemães) foram considerados inimigos internos e vistos com desconfiança. A experiência talvez tenha sido ainda mais dramáticas para os japoneses, com a divisão interna na colônia entre os que acreditavam que os japoneses haviam sido derrotados e os que se recusavam a crer nos fatos. O conflito entre “derrotistas” e “vitoristas” foi sangrento, como se pode ler no ótimo livro de Fernando Morais, Corações Sujos (transformado em filme de Vicente Amorim).

Mas é no âmbito subjetivo que este documentário apresenta suas melhores cartas. Nas fotos que, em seu rigoroso silêncio, não cessam de falar e nas cartas, uma em especial que narra a longa e penosa travessia marítima do Japão ao Brasil. A magia sofrida da imigração, este estar perene entre duas culturas e duas esperanças, desvela-se então por inteiro. Quem é imigrante, ou de família de imigrantes, sabe o que é isso.

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