‘Todos os Mortos’ e as raízes do racismo no Brasil
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‘Todos os Mortos’ e as raízes do racismo no Brasil

Luiz Zanin Oricchio

11 de dezembro de 2020 | 10h07

 

Depois de concorrer no Festival de Gramado, Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, chega ao circuito. A parceria redundou numa obra que prospecta raízes do possivelmente principal impasse e desafio a ser superado pela sociedade brasileira – o racismo estrutural, herança do longuíssimo período escravocrata do País. 

Se pudéssemos (não podemos) resumir Todos os Mortos em uma trama, diríamos que se refere a três mulheres brancas, membros falidos da oligarquia rural, que se mudam para São Paulo. Mas é como se não tivessem saído da fazenda da família, da convivência e relação autoritária com os escravos e com a cultura afro-brasileira vista como estranhamento. O patriarca da família permaneceu na fazenda, de onde tira seu ganha-pão, mas agora na condição de empregado. 

Uma dessas mulheres da família Soares, Ana (Carolina Bianchi), refugia-se em seu piano, tocando polcas e modinhas. A outra, Maria (Clarissa Kiste) tornou-se freira. A mais velha, mãe de ambas, Isabel (Thaia Perez), é a matriarca atormentada pela ideia da morte e da opulência perdida. Mas seriam elas as protagonistas ou Iná Nascimento (Mawusi Tulani), ex-escrava que deseja mudar-se para São Paulo por conta própria e em companhia do filho João (Agyei Augusto)? Iná deseja sua independência e reencontrar o marido, que se mudou para a cidade em busca de trabalho. 

Se é verdade que alguns personagens permanecem mais tempo em cena, o filme mostra uma inequívoca vocação coral. Vários outros personagens vão entrando na história, como a senhora italiana (Tuna Dwek), a portuguesa Leonor Silveira como Dona Romilda, Gilda Nomacce como a irmã Flora e outros mais. Não parece haver papéis secundários, uma vez que cada personagem pincela nova camada de sentido nesse quebra-cabeça à brasileira. A abertura do filme é uma sequência fantástica com Alaíde Costa como a veterana Josefina, matriarca negra da fazenda. Basta ver essa abertura para o espectador se conscientizar de que ali há cinema para valer. 

A própria música é personagem fundamental, num trabalho muito sofisticado de Salloma Salomão. Ela envolve praticamente todos os atos dessa tragédia anunciada e lhe acrescenta novos sentidos. Por exemplo, na pianista que interpreta Nazareth e soa europeizante, mas já incorporando uma rítmica afro-brasileira. Num corte, ouvem-se outros sons e tradições de origem africana. São ondas sonoras que, sem qualquer palavra, põem em xeque as ilusões do branqueamento europeu da sociedade brasileira, em voga no tempo histórico inicial do filme, 1899, 11 anos depois da Abolição e dez após a Proclamação da República. 

A temporalidade não é linear. Como forma de sugerir que os mortos não morrem, a história não passa e os pecados do passado permanecem no presente, o filme trabalha com anacronismos. A São Paulo para onde vai a família e onde também passa a morar Iná e seu filho João, é a da virada do século 19 para o 20. Mas já é também a metrópole fervilhante em que se tornaria décadas depois. 

Todos os Mortos é um filme pleno de sugestões, intuições e boas sacadas. Dirige-se tanto à inteligência como à sensibilidade e nos fornece um retrato intuitivo de como somos, por que somos assim e como chegamos até aqui. Prevejo que muito ainda há de se falar e escrever sobre essa obra, em especial neste momento do país. Tempo paradoxal: rastejamos no mais abjeto reacionarismo político ao mesmo tempo em que vemos afirma-se com força crescente uma justa onda antirracista. Um paradoxo bem à brasileira, aliás um dos subtemas do filme. 

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