Histórias do ‘João sem medo’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Histórias do ‘João sem medo’

Luiz Zanin Oricchio

02 Abril 2008 | 15h46

jo

Quem deu esse apelido a João Saldanha (1917-1990) foi seu amigo e colega Nelson Rodrigues. Nelson, como sempre, sabia do que estava falando. João, como aquele personagem de Caimmy, era valentão e brigão, apesar de magrinho. Comprava encrenca com todo mundo. Do dono de farmácia que lhe vendera pilhas vencidas aos ditadores do período militar. Foi durante a vida adulta toda militante do Partido Comunista Brasileiro e chegou à sua cúpula. Preparou a mitológica seleção de 1970 — aquela que conquistaria o tricampeonato para o Brasil, mas não sob o comando de João, demitido antes da Copa do México, numa história enrolada até hoje não de todo esclarecida. João morreu, talvez, exatamente como queria. Na cobertura de uma Copa do Mundo, a da Itália, em 1990. Essa, em alguns traços, a vida de João Saldanha, contada no cinema por seu biógrafoAndré Iki Siqueira e por Beto Macedo.

O documentário conta com muitos depoimentos e com imagens de arquivo do próprio João, que deu muitas entrevistas na vida e participou de programas como o Roda Viva da TV Cultura. Usa também imagens de arquivo para relembrar a história do menino gaúcho, filho de pai rico, que cresceu entre armas e conflitos, naquelas intermináveis disputas entre maragatos e chimangos. João foi forjado no combate e essa característica bélica o acompanharia ao longo da vida. Quando a família se mudou para o Rio, ele logo se adaptou à vida da praia. Aprendeu a curtir o futebol de areia e jogou, ao lado de Heleno de Freitas, no time do não menos mitológico Neném Prancha. O filme avança com Saldanha tornando-se treinador do Botafogo, campeão carioca de 1957, naquele time de Adalberto, Beto, Thomé, Servílio, Pampolini e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Paulo Valentim, Édson e Quarentinha. Até hoje os botafoguenses suspiraram com essa escalação.

Saldanha, em si, já é um personagem tão rico que excede as pretensões de um documentarista. Tanto assim que Iki Siqueira, um dos dois que assinam o filme, escreveu uma sólida biografia intitulada João Saldanha – uma Vida em Jogo (Companhia Editora Nacional) com nada menos do que 552 páginas de texto. Mas há um dado a mais, que aumenta o interesse do documentário. João é todo o tempo visto contra o pano de fundo do momento histórico que lhe foi dado viver. Nem poderia ser de outra forma, se quisesse ser fiel ao personagem, pois Saldanha foi sempre, integralmente, homem do seu tempo. Militante político, atuante e desassombrado, encarnou todas as contradições do período histórico em que viveu. E levou-as ao seu campo de atuação profissional – o futebol.

Assim, apesar da rigidez ideológica, era um modernizador, pois atento à dialética (e, portanto, à mudança) inevitável da história. Percebeu que o tempo do futebol era outro e montou um time taticamente mais plástico para enfrentar a Copa do Mundo de 1970. Ao mesmo tempo, era inevitável que se chocasse contra a estrutura militarizada da Comissão Técnica e que os conflitos se agravassem, impedindo-o de acompanhar a equipe que montara à conquista do tri. Há muitas versões para essa história e, como não existem certezas, o filme se limita a apresentá-las. Do desconforto de uma ditadura de direita com um técnico membro do PC à suposta imposição de Garrastazu Médici para a convocação do atacante Dario – tudo foi fermentando numa situação de fritura para o técnico. Tostão resume: “O clima foi ficando tenso e nós (os jogadores) sabíamos que não iria terminar bem”. E não terminou mesmo. João foi demitido na véspera da Copa e voltou à sua função de comentarista esportivo.

Desse ir-e-vir entre a história pessoal e a História do País, o documentário tira sua força maior. Mas não menos atrativas são as pequenas histórias, os casos saborosos desse homem que era um escritor ágil e despojado, mitômano militante que dizia ter participado do desembarque da Normandia e da Grande Marcha de Mao Tse-Tung, do briguento descontrolado capaz dos atos da mais extrema generosidade, do frasista genial. De alguém que amou seu país acima de tudo. Quando lhe perguntaram se era otimista, Saldanha respondeu: “Claro; se não fosse otimista já teria me naturalizado dinamarquês há muito tempo; acredito no Brasil e em seu povo”.

Esse era o João sem Medo. Uma figura que talvez não tivesse vez neste ambiente mesquinho e burocratizado que é o nosso, um país de futricas e dossiês. E num futebol de negociantes e almofadinhas. João era de outra época e estofo. Pior para nós. Mas, se estivesse vivo, estaria por aí, por certo brigando pelas coisas em que acreditava.