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O político e as palavras

Luiz Zanin Oricchio

08 de julho de 2007 | 11h09

Uma coisa leva a outra: no recesso de fim de semana li no El País um artigo saudando a nova tradução em espanhol dos contos de Hemingway. A matéria cita a famosa teoria do iceberg, de Hemingway: a imensa massa de gelo só se move com tanta majestade porque sete oitavos estão submersos e apenas um oitavo aparece fora da água. Metáfora para o texto. Deve-se enxugá-lo até que reste apenas o essencial. A parte “oculta”, sob a linha d’água, deve ser pescada por um leitor suposto ativo. Mentalmente, claro.

Dei uma olhada nos meus livros de Hemingway, em especial nos contos, li algumas páginas um tanto distraidamente, pensando em como aquele tipo de texto deveria ser recomendado em faculdades, em especial nas de jornalismo. Me lembrei de um escritor brasileiro genial que, como Hemingway, pregava a concisão como o mais sagrado dos preceitos literários: Graciliano Ramos.

Lembrei também que Graciliano dizia escrever da mesma forma que as lavadeiras de Alagoas tratavam as roupas. Fui em busca da citação exata: “Elas começam dando uma primeira lavada. Molham o pano na beira do rio, torcem, molham novamente, torcem. Então botam o anil, ensaboam, torcem novamente, enxáguam, mais uma molhada, outra enxaguada. Em seguida põem-se a bater o pano na laje ou pedra limpa. E tome secadura: torcem, até não pingar do pano uma só gota. E somente aí é que penduram a roupa na corda. Enxaguar e enxaguar. Palavra não foi feita para enfeitar, como bandeirinha de festa de São João. Palavra foi feita para dizer.”

Eis aí o que deveríamos ter na cabeça, nós que escrevemos: apenas as palavras necessárias, o mot juste. Graciliano era rigoroso até mesmo nos relatórios que escrevia ao governador de Alagoas, Álvaro Paes, quando foi prefeito de Palmeira dos Índios, entre 1929 e 1930.

Leiam a conclusão de um deles:

“Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.

Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.

Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome.

Não me fizeram falta.

Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.

Paz e prosperidade.

Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929

Graciliano Ramos”

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