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Quem ganhou o Festival de Recife?

Luiz Zanin Oricchio

01 Maio 2007 | 11h35

O resultado do júri foi tão ambíguo que ainda existe quem se pergunte: quem ganhou afinal? Cão sem Dono, eleito o melhor filme, ou Os 12 Trabalhos, que levou o maior número de estatuetas? Não deveria haver dúvida sobre isso: ainda que só tivesse recebido esse prêmio, Cão sem Dono seria o vencedor oficial, pois recebeu o prêmio principal, o de melhor filme. Ponto, parágrafo.

No entanto, essa ambivalência dá o que pensar. Há uma metáfora interessante a respeito dos festivais, que os compara ao teatro. Assim, um festival seria uma peça (drama ou comédia) em três atos.

O primeiro ato corresponde à seleção dos filmes concorrentes.

O segundo, à apresentação desses filmes e as reações a eles por parte do público, nos debates e na imprensa; enfim, sua repercussão ao longo do evento.

O ato final tem o júri como protagonista; é ele quem fornece o retrato final daquela edição do festival, seu perfil e como irá figurar na história do evento.

Quanto ao “primeiro ato”, pode-se dizer que representou a perda da oportunidade de fazer um festival histórico, pois dispunha de pelo menos dois filmes muito fortes – Cão sem Dono e Não Por Acaso – e totalmente inéditos. Tinha também um filme forte de público, o igualmente inédito O Mundo em Duas Voltas. No entanto, resolveu colocar na mostra um filme “velho”, Os 12 Trabalhos, amplamente conhecido dos jornalistas e da crítica de todo o país. A presença deste filme desgastou e desequilibrou a seleção. Nota 7 para esse primeiro ato, que poderia ter sido nota 9.

Quanto ao segundo ato, o público do Recife, que é a força do festival, fez a sua parte e prestigiou o evento. Mas o segundo ato não se resume à presença de público no cinema, seu entusiasmo e sua participação. Diz respeito também à repercussão do filme. O debate de Os 12 Trabalhos não reuniu sequer meia dúzia de gatos pingados. Ninguém mostrou interesse em discutir um filme já amplamente debatido e criticado em várias praças do País. Foi ignorado. Nota 7 para o segundo ato.

O terceiro ato sofreu com as contingências do segundo e, em especial, do primeiro. A produção de um resultado tão ambivalente não me parece fruto do acaso. Reflete, talvez, uma divisão no interior do júri, incapaz de se definir por este ou aquele candidato com convicção. A vontade de não desagradar ninguém produziu um retrato confuso. Talvez a maioria do júri tivesse vontade de dar o prêmio a Os 12 Trabalhos, já que ele recebeu o maior número de estatuetas, inclusive a de melhor direção. Mas pode ter hesitado em premiar um filme não-inédito quando havia inéditos de grande qualidade na parada.

É uma hipótese. A outra é que se decidiram por Cão sem Dono, deram a ele a estatueta de melhor filme, mas, sem gostar totalmente do trabalho de Beto Brant e Renato Ciasca, resolveram enfraquecer a própria escolha, atribuindo o maior número de estatuetas a outro concorrente, Os 12 Trabalhos.

Seja como for, esse desequilíbrio gerou a ambigüidade não desejada no resultado. Criou confusão, em uma palavra. A tal ponto que ouvi em uma rádio de São Paulo que o vencedor do Cine PE fora Os 12 Trabalhos, pelo número de prêmios conquistados. E até jornalistas experientes andaram batendo cabeça ao tentar interpretar o resultado.

Ora, uma premiação que não é clara não pode ser boa. Nota 5 para o júri, que poderia ter dissipado a confusão da comissão do seleção e só fez aprofundá-la. Não errou tanto na atribuição de prêmios individuais e nem cometeu nenhuma grande injustiça (a não ser, talvez, esquecer de dar a estatueta a Julio Andrade, de Cão sem Dono), mas se equivocou no desenho do conjunto.

Conclusão: um festival que poderia ter sido quase perfeito (a perfeição não existe) enfraqueceu-se por um equívoco de seleção, erro que se amplificou nas decisões do júri. E o pior é que havia alternativas disponíveis para Os 12 Trabalhos, que aliás é um belo filme, mas deslocado nesta seleção de inéditos.

Fica a lição para os próximos anos.