As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Saudades da varanda

Luiz Zanin Oricchio

22 Março 2007 | 13h07

Depois de quase 20 dias de permanência, dou adeus à Serra do Japi. Bem, na verdade é um até breve, pois pretendo voltar outras vezes. Fazia muito que não passava tanto tempo seguido no campo, eu que sou do asfalto e prefiro a praia. Mas vim para Cabreúva (não é a primeira vez), fui gostando e ficando. Existe algo de regenerador no meio rural, não sei dizer exatamente o quê. Talvez reflexo de um atavismo pouco ou nada consciente para quem tem sido urbano a vida toda. Em todo caso, existe um lado rural na minha origem. Minha mãe nasceu na região de Piracibaca e tenho muitos parentes ainda por lá, além de outros espalhados pelo interior do Estado. Meu avô, vindo do Vêneto, possuía fazendas naquela região, vendeu-as e veio com a família morar em São Paulo. Memórias fugazes de infância me falam em férias na roça, canto de galo pela manhã, gado no pasto, sensação de palha do paiol na pele, dias quentes, manhãs frias. Talvez seja um reencontro tardio. Talvez. Gostei.

Comi pouco, fumei meus charutos, fiz ginástica, nadei, caminhei, dormi bem, incluindo a sagrada sesta. Tive tempo de ler, não muito, mas o suficiente. Visei mais a qualidade que a quantidade. Terminei o magnífico e estranho Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño, sobre o qual ainda quero escrever mais adiante. Iniciei a minuciosa e envolvente biografia de Carmen Miranda, escrita por Ruy Castro, alternada com a de Beethoven, de Lewis Lockwood. Revi alguns livros de cinema, que fui folheando em conjunto. Livros críticos, como o texto de antologia de André Bazin sobre Orson Welles, a História do Cinema Mundial, organizada por Fernando Mascarello , a L’Analyse des Films, de Marie & Aumont, bastante técnico e preciso. Fui lendo tudo com calma, sem qualquer outro objetivo que não o de percorrer a literatura da minha área de atuação profissional.

Mas qual é a minha área? Cinema, sem dúvida. Sou um especialista? Não. Desconfio de especialistas na seara dita humana. Qualquer um de nós pode, e deve, manter o foco sobre alguma disciplina ou atividade, como é o cinema no meu caso. Isso não o coloca fora do mundo, ao abrigo das contingências históricas e políticas. Acho uma sala de cinema um dos melhores lugares para se estar. Mas que não seja um porto seguro de alienação em relação ao mundo, o que seria uma espécie de “Síndrome Rosa Púrpura do Cairo”, para lembrar aquele ótimo filme de Woody Allen. Estamos no mundo, para bem ou para mal, e precisamos refletir sobre ele.

E refletir de maneira serena e eclética, se possível. Nesse sentido, não poderia deixar de recomendar, com muita ênfase, outra leitura dessas férias – Nem Marx, nem Contra Marx, de Norberto Bobbio. Essa seleta de textos acompanha o debate de Bobbio com o marxismo e a esquerda (italiana, em especial) ao longo de décadas. É um exercício de diálogo democrático, rigoroso, incisivo, mas que não se deixa nunca levar pela saída fácil da desqualificação de quem pensa diferente.

Ao ler esses textos, dou-me conta da falta que fazem ao Brasil pensadores desse porte. Bobbio nunca se rende ao Fla-Flu excludente que põe esquerda e direita em trincheiras opostas. Também não cai na tolice inversa que consiste em abolir as diferenças do espectro político e colocar tudo no mesmo saco. Acolhe as distinções e as faz trabalhar em seu raciocínio metódico, tranqüilo, iluminador. Quanta diferença em relação à gritaria obscurantista em que se transformou o debate político-intelectual no Brasil, irracionalista, raivoso, apocalíptico, sub-glauberiano, no pior sentido do termo. Leiam Bobbio. Pode-se concordar ou não com ele, não é isso que importa. É leitura que ilumina, alarga nossos horizontes, azeita a nossa máquina crítica, alegra nossa inteligência.