As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tiradentes e a juventude

Luiz Zanin Oricchio

23 de janeiro de 2008 | 01h30

Começou bem a 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Com uma programação variada, ampla – e um foco, proposto por seu curador, o crítico Cléber Eduardo: Juventude em Trânsito. Assim, a pergunta a ser respondida nesta edição se torna a seguinte: o que é ser jovem no cinema do Brasil? E, não por acaso, em paradoxo apenas aparente, o evento foi aberto por Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, um veterano considerado como jovem por todas as gerações. Dessa forma, chamando Carlão, o conceito do festival escapa à banalidade das classificações meramente geracionais.

Mesmo que, em certa medida, elas entrem em consideração. Por exemplo, como destaca Cléber, desde o ano 2000 podem ser contabilizados 162 filmes de estreantes em longa-metragem no Brasil. Cifra que, talvez, não tenha paralelo em nenhum outro país do mundo. A se confirmarem esses números, eles apontariam para um índice de renovação sem precedentes no cinema brasileiro. ‘Mesmo que muitos desses estreantes, por motivos diversos, nem cheguem ao segundo longa’, ressalva o curador.

Isso também é verdade. Por peculiaridades do cinema brasileiro nem sempre as carreiras profissionais no cinema têm continuidade. Não é incomum uma pessoa fazer um filme, lançá-lo em um festival ou mesmo no circuito e depois sumir do mapa. Ainda mais hoje em dia, com as novas tecnologias que barateiam certo tipo de produção e, portanto, a democratizam. Haja vista a proliferação de documentários em tecnologia digital, em escala nunca vista. Mas, quaisquer que sejam as dificuldades, tal produção, feita por novatos, só pode ser interpretada como prova de vitalidade da nova cinematografia que surge por aí. Acolhê-la e medi-la com palavras é a nova tarefa da crítica.

Nesse sentido, os primeiros movimentos de Tiradentes foram animadores. Carlão Reichenbach, o ‘veterano jovem’, mostrou a sua mocidade à deriva na figura da falsa loura interpretada por Rosanne Mulholland. Nessa nova imersão do diretor no universo operário, Carlão trabalha com a inversão de clichês, saturando-os a ponto de anulá-los. É assim na melhor seqüência do filme, quando a protagonista é levada para uma fazenda, dança ao luar e à beira da piscina, sem se dar conta de que está entrando numa roubada. Falsa Loura é um belo e irregular filme. Mas é grande em sua irregularidade e, talvez, até mesmo por isso.

Nesse sentido, o trabalho de Reichenbach propõe uma definição para o que seja a ‘juventude’ buscada pelo festival mineiro – a disposição permanente ao risco. A vontade de não se acomodar a fórmulas prontas e seguras. O desejo de se arriscar, mesmo que seja para quebrar a cara, pois o acerto, como se sabe, passa pelo erro.

Assim, o termo ‘risco’ insere-se na tessitura mesma de outro dos participantes do festival, José Eduardo Belmonte e o seu terceiro longa, Meu Mundo em Perigo. Rosane Mulholland como protagonista, ao lado de Eucir de Souza, formam um casal atormentado, atingido por um malaise de tipo existencial. Em trama paralela, um pai impositivo e um filho muito frágil (Milhem Cortaz, o Zero Dois de Tropa de Elite) coexistem, com seus problemas. As duas linhas ficcionais irão se cruzar de forma trágica. ‘Minha idéia foi verificar se a família era mesmo um lugar de apaziguamento ou não’, disse Belmonte. O filme é brilhante, com sua opção de câmera rente aos personagens e uso da trilha sonora com densidade há muito não vista. O senso de improviso é perceptível e dá ao longa uma liberdade muito grande. ‘Gosto de trabalhar como um músico de jazz; tenho uma progressão harmônica a seguir, mas, dentro dela, podemos improvisar à vontade na melodia’, compara Belmonte.

Outro filme que passou pelo Cine Tenda foi Alucinados, de Roberto Santucci (de Bellini e a Esfinge). E, aqui, a disposição para o risco se mostrou menor. História de um seqüestro-relâmpago no Rio, Alucinados agarra-se à gramática segura do thriller de ação norte-americano e, nela, revela-se competente. Mas pouco mais do que isso. O ‘salto de qualidade’ que Santucci pretende dar parece inócuo – um longo psicodrama final em que seqüestrada e seqüestrador explicam suas razões. Corpo estranho em uma trama movimentada, embora um tanto óbvia. Alucinados é realizado com tecnologia digital de boa qualidade.

É jovem a falsa loura de Reichenbach que anda na beira do abismo, assim como são jovens os protagonistas terminais de Belmonte e também os bandidos de Santucci. Igualmente muito jovem é a personagem principal de Deserto Feliz, longa de Paulo Caldas também apresentado em Tiradentes. Jéssica (Nash Laila) vive (se é que o verbo cabe) num sítio, onde é explorada sexualmente pelo padrasto. Torna-se prostituta e objeto de desejo no turismo sexual.

Deserto Feliz não é apenas um filme de denúncia embora seja isso também. Num belíssimo e dilacerado exercício cinematográfico, Paulo Caldas (co-diretor de Baile Perfumado) acompanha essa garota à deriva com um rigor cheio de inovação. A ‘história’ (pois se trata tanto de fatos como de estados de alma) é escrita na tela por uma câmera que descreve e fala, muito mais do que os diálogos propriamente ditos. É cinema da pesada. De risco e invenção. Jovem.

(Caderno 2, 22/1/08)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.