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Tintim

Luiz Zanin Oricchio

29 Fevereiro 2012 | 23h08

Como este texto não vai sair mesmo no jornal, é melhor publicar no blog, antes que o filme desapareça do circuito. 

 

 

Para os fãs, Tintim, a HQ de Hergé, sempre foi sinônimo do prazer proporcionado por uma boa história. A versão para o cinema, de Steven Spielberg, em 3D, não deve decepcionar os leitores. Spielberg é razoavelmente fiel aos originais, não literalmente, mas ao seu espírito. E qual é esse espírito? O da aventura, gênero no qual o cineasta costuma se sair bem. Pelo menos, nesse terreno fica livre de sua tendência à pieguice, à qual dá livre curso quando se dedica ao drama.

No plano do enredo, O Segredo do Licorne está muito bem servido como ponto de partida para a aventura. Temos os ingredientes ideiais – uma caça ao tesouro, cuja localização será decifrada através de mapas e códigos. Heróis dispostos a enfrentar qualquer perigo para encontrar a riqueza e vilões prontos a qualquer baixeza para conseguir o mesmo. Piratas, terras longínquas e exóticas, um certo grau de humor e, pronto: aí está a diversão garantida.

No plano visual, Spielberg faz um bom uso do 3D, isto é, comedido, sem exibicionismos. A técnica se coloca em função da narrativa e não o contrário, como tem sido a regra desde quando a indústria (re)descobriu nas três dimensões a salvação da lavoura para atrair o público às salas e aumentar o preço dos ingressos. Há quem se queixe do desconforto do 3D, do uso obrigatório dos óculos, e da dificuldade de leitura das legendas. Tudo isso é verdade. Mas também não deixa de ser um atrativo a mais do cinema, mesmo que, no fundo, fiquemos nos perguntando se a diversão não seria a mesma, e sem tanto alarde, com as boas e velhas duas dimensões.

De todo jeito, Spielberg utiliza bem a técnica de motion capture, que usa atores, para lhe captar o movimento e depois usá-lo no processamento digital do filme. Isso dá uma naturalidade interessante à animação, o que facilita a empatia com os personagens. Claro, há uma maneira spielberguiana de ver as coisas e esta está impressa em Tintim: se estamos diante de uma aventura, não há motivo para nos preocuparmos com pontos de repouso. O ritmo deverá ser de montanha-russa, mesmo que isso não esteja tão explícito no original. De qualquer forma, Spielberg é peixe n’água no universo de Tintim. O parentesco entre a criação de Hergé e Indiana Jones é mais que evidente. Até mesmo na maneira um tanto altiva, para usar um termo ameno, como olham os povos diferentes e desses países distantes onde vão viver suas aventuras.

Desse modo, Tintim é um filme de ação, em que a verossimilhança é aposentada em nome da movimentação pirotécnica. Por sorte, resguardam-se as figuras de humor imaginadas por Hergé, como os agentes secretos Dupont e Dupond (homófonos em francês), curiosamente chamados Thompson & Thompson em inglês. Quem legendou teve o bom senso de manter a grafia original das HQs. E também o Capitão Haddock, mostrado como um alcoólatra terminal, embora engraçado assim mesmo. Por sorte, Spielberg não fez de Haddock um abstêmio, conforme exigiria o pensamento politicamente correto vigente.

Mas seria um engano considerar o capitão borracho mero expediente cômico. À sua maneira, e apesar da bebedeira constante, Haddock representa o polo positivo da eterna luta entre o Bem e o Mal, sendo o outro lado representado por Rackham, o Terrível. Luta que se arrasta por gerações e passa de uma a outra como um legado sem fim. Quer coisa mais spielberguiana que isso?

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