As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Times que vão mal da alma *

Luiz Zanin Oricchio

13 de agosto de 2013 | 10h46

Amigos, até agora não vi nenhuma análise convincente sobre a queda livre do São Paulo que, com a derrota para a Portuguesa, completou a respeitável cifra de dez jogos sem conhecer o cheirinho de uma vitória sequer. Fosse outro time, já chamaria a atenção. Sendo o São Paulo, durante tanto tempo modelo acabado da boa administração, a coisa toma outra figura e amplia-se. O que acontece com o Tricolor?

 

Olhando para o elenco são-paulino não encontraremos a causa para o time estar na zona de rebaixamento. Ok, pode não ser o melhor “plantel”(como diziam os antigos) do mundo, mas está longe de ser um Íbis. Um time que tem Rogério Ceni (mesmo em fim de carreira), Luis Fabiano, Jadson, Ganso, etc não pode ser tão ruim. Além de ter, no comando técnico, alguém com a experiência e competência de Autuori.

 

Ora, se não achamos motivos para tanto fracasso naqueles diretamente envolvidos no jogo, vamos procurá-los em outra parte – na administração do clube, em sua esfera política. Já se sabe que Juvenal Juvência, o popular JJ, entrou na lista negra da mídia. Seu continuísmo, ar senhorial e prosódia aristocrática o tornaram persona non grata do jornalismo especializado. Estou pronto para concordar com todos os meus colegas. Nada é mais desagradável que gente de nariz em pé se achando melhor do que os outros. Nada me é mais antipático. No entanto, com todos os seus evidentes defeitos, me parece que JJ seria incapaz de fazer tanto mal ao São Paulo como andam dizendo.

 

E quem anda dizendo não são os rivais, mas os próprios são-paulinos. Ontem mesmo conversei com um deles, um jovem ator e diretor de cinema, tricolor de carteirinha, que disse torcer pela queda do seu time para a Segunda Divisão, pois assim, em suas palavras, essa geração de políticos seria enterrada para sempre. Certo, a renovação seria bem vinda mesmo. Seria suficiente para tirar o tricolor da draga em que se encontra? Talvez. Às vezes um choque de gestão dá uma chacoalhada numa equipe e ela passa a reagir. Mas, vendo o São Paulo jogar, parece que a coisa é mais grave. É como uma perda de alegria, uma tristeza, um banzo generalizado que impede o time de deslanchar. Se pudéssemos deitar um time inteiro no divã de um psicanalista, essa seria a indicação para o São Paulo. O time parece estar mal da cuca. E esse tédio diante da vida, essa melancolia sem fim vai além dos desajustes da era JJ. Há que procurar mais embaixo.

 

Outro caso exemplar de problemas de cuca em futebol, e seus desdobramentos imprevisíveis, é o Santos Futebol Clube. Depois de sofrer o massacre em Barcelona, parecia que ia implodir. Um time humilhado naquele nível só teria um destino possível, a Segunda Divisão. No entanto, nos jogos seguintes, arrancou dois empates improváveis. Um, em casa, contra o Corinthians, e outro, fora, contra o Cruzeiro. Empate só vale um pontinho. No entanto, esses dois resultados tiveram valor moral inestimável. Mostraram que o time tem fibra e personalidade. Vergonha na cara, em uma palavra. Pode não ser brilhante (e não é). Não vai ganhar campeonato. Mas pode também surpreender e ir mais longe do que o mais otimista dos torcedores se atrevia a prever.

 

A catástrofe de Barcelona, conforme diagnosticou Ugo Giorgetti, foi fruto de um processo de vira-latice crônica. Naquela sexta-feira no Camp Nou o time desceu tão baixo que acabou por despertar. Tem jogado com alma e aplicação, como se quisesse provar que aquela goleada foi mero acidente. O inconsciente futebolístico é cheio de surpresas. O São Paulo precisa providenciar uma delas para sair do buraco.

 

* Coluna publicada no Esportes do Estadão

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: