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Times que precisam de um psicanalista

Luiz Zanin Oricchio

16 de agosto de 2011 | 09h51

Os muito objetivos que me desculpem, mas, no futebol, emoção é fundamental. Não estou falando nessa emoção que deveria ser o ingrediente normal de todos os jogos, mas no fator psicológico de cada clube e suas repercussões no desempenho do time, maior, a meu ver, que esquemas táticos e outros bichos.

Volto ao assunto, inesgotável, estimulado pelas declarações de Felipão que, como vocês sabem, usou de sua autoridade e abriu a caixa de Pandora. Lavou a roupa suja em público e afirmou que o time teria de reencontrar a paz, perdida depois do assédio do Flamengo ao Kleber. Pode ser só a ponta do iceberg, com licença desse lugar-comum. As divergências, especula-se, envolveriam também a ciumeira pelos salários do Gladiador, e o mais que se pode imaginar. O Palmeiras parece, mais uma vez, um clube partido, com tendências internas conflitantes. Isso atinge o rendimento em campo. O time parou. Este é o fato. O Palestra sofre da alma.

O mesmo pode ser dito em relação ao Santos, cuja ineficiência beira as raias do incompreensível. Outro dia dediquei uma coluna ao Paulo Henrique Ganso, mas ele não é o único que está devendo futebol na Vila. O time todo, com uma ou outra exceção, demonstra inapetência que quem acabou de comer uma feijoada. Não digo que tenham de disputar o título, o que já parece uma quimera dada a distância para os primeiros colocados, mas, pelo menos, deveria se livrar da posição indigna na tabela. Humilhante, claro, levando-se em conta que o time da Vila é o atual campeão paulista e da América. Não faz sentido.

Ou, por outra, talvez faça, desde que a gente analise os tais aspectos emocionais ou psicológicos. Palmeiras e Santos se encontram em posições antagônicas nesse aspecto. O que, paradoxalmente, leve ambos à paralisia.

O Palmeiras parece vítima da ausência prolongada de títulos – o que causa muita pressão num time de grande tradição e torcida. Gera uma ansiedade que, às vezes, põe tudo a perder. Outro dia, em entrevista ao Estado, feita pelos companheiros Bruno Lousada e Silvio Barsetti, Luxemburgo disse que o time estava preparado para ser campeão brasileiro em 2009, mas foi atropelado pela ansiedade do então presidente Luiz Gonzaga Belluzzo e acabou perdendo o título. “O Belluzzo mostrou inabilidade muito grande, jogou um Brasileiro fora por vaidade”, disse. Vamos dar um desconto ao ego do Luxa (foi demitido) e reter apenas isso: muitas vezes um clube tem tudo para ganhar e perde para si mesmo. Quer dizer, perde para o seu emocional, para a sua cabeça mal resolvida. Se o Palestra fosse um indivíduo, recomendaríamos que deitasse no divã de um profissional experimentado e botasse os demônios para fora. Talvez assim deixasse de lutar contra si mesmo. Mas como psicanalisar um time?

Outro que mereceria o divã seria o Santos. Se o Palmeiras vive na ansiedade, o Santos tropeça no fastio. Tem todo o ar de quem já fez o seu dever de casa e sente que merece descanso. Se pudesse pedir moratória do Campeonato Brasileiro, acho que o faria sem hesitar. Brasileirão, só em 2012. Como não pode, e tem de cumprir suas obrigações, entra em campo com uma preguiça digna de Macunaíma. É a síndrome da barriga cheia, de quem já tem tudo e só pede sombra e água fresca. Cá entre nós, também acho que é assim, que depois do trabalho vem o repouso e não se deve viver na ansiedade constante da disputa. Acontece que futebol é desse jeito: é jogo, é competição, é pau puro. Acomodou, dançou.

Assim, o nosso hipotético psicanalista de futebol teria de resolver no Palmeiras a ansiedade por desempenho (síndrome que acaba criando situações constrangedoras em outros domínios) e deveria devolver o apetite perdido ao Santos. Não é fácil, deve-se reconhecer.

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