Thomaz Farkas. Profissão: brasileiro
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Thomaz Farkas. Profissão: brasileiro

Luiz Zanin Oricchio

15 de abril de 2010 | 09h37

farkas

Não existe nenhuma incoerência em dizer que um húngaro nascido em Budapeste é o mais brasileiro dos brasileiros. Não, se você estiver se referindo a Thomaz Farkas, fotógrafo, produtor, cineasta, que hoje às 19 horas recebe homenagem da Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207), instituição da qual é ex-presidente e membro do Conselho. Na ocasião será lançada a caixa, com sete DVDs, do Projeto Thomaz Farkas (Vídeo Filmes/Cinemateca), e exibido o curta Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de autoria do homenageado.

Vendo-os, você vai entender o sentido da frase que abre essa matéria. Quais são os temas desses filmes? O cangaço, a migração, o futebol, a escola de samba, os trabalhadores do Nordeste, a música, a religiosidade, as cantorias e salas de milagres, a seca e o esplendor artístico dos artesãos. Enfim, um Brasil que, na época em que esses filmes começaram a ser produzidos, e muitas vezes fotografados por Farkas, era quase desconhecido no chamado Sul Maravilha. Na época, mostrar esse outro Brasil, divulgá-lo para quem não o conhecia, era tarefa artística, mas também política.

Impulso. Farkas deu esse impulso ao movimento documentário em dois movimentos: no primeiro, com os quatro médias-metragens depois reunidos no formato de longa com o título Brasil Verdade (1968): Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, Subterrâneos do Futebol, de Maurice Capovilla, Nossa Escola de Samba, de Manuel Horacio Giménez, e Viramundo, de Geraldo Sarno. Em seguida, entre 1969 e 1970, Farkas conduziu pelo interior do País técnicos e jovens diretores para registrar o que viam. Dessa iniciativa, resultaram os 19 curtas e médias da chamada Caravana Farkas.

Além dos quatro documentários de Brasil Verdade, a caixa traz filmes assinados por nomes como Sérgio Muniz (A Cuíca), Eduardo Escorel (Visão de Juazeiro), Guido Araújo (A Morte das Velas do Recôncavo), Roberto Duarte (Ensaio), Miguel Rio Branco (Trio Elétrico), além das obras do próprio Farkas (Hermeto, Campeão, Paraíso Juarez, Todomundo e Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba). Com suas variantes de tema e estilo, o conjunto é um mergulho no Brasil profundo.

Os mais conhecidos são mesmo os quatro que foram agrupados para formar o longa-metragem de 1968 Brasil Verdade. Esses ganharam razoável fortuna crítica, parte pelo fato de terem sido reunidos em formato comercial, parte pela própria qualidade.

No entanto, Projeto Farkas merece a atenção geral do espectador em seu todo. Não apenas pelo valor intrínseco das obras, como pelo documento que representa um certo tipo de olhar sobre a realidade nacional. Não que todos esses curtas, médias e até mesmo um longa como Andiamo in”merica, de Sergio Muniz, possam ser agrupados sob uma linha estilística única. Não. São realizadores diferentes e, por mais que os unificassem preocupações em comum, desenvolveram estilos particulares, embora muitos tenham sido agrupados pelo rótulo de “cinema direto” ou “cinema verdade”. Os filmes vão do registro direto, às vezes comentado por uma voz off que unifica e dá sentido às imagens, ao mero registro amoroso das realizações populares no campo da arte. Além disso, as obras se distribuem num arco relativamente longo de tempo. Vão desde os anos engajados em meados da década de 1960 até a atualidade – em especial nas obras do próprio Thomaz Farkas.

Ainda assim, contemplados em toda a sua diversidade, pode-se notar um sabor de época predominante. Em especial nos primeiros títulos da série, que flagram um Brasil “autêntico”, mas em plena transformação. De fato, alguns desses filmes vão ao sertão para registrar não apenas a tradição, mas a chegada de uma modernidade que a ameaça. São obras, muitas vezes, de fricção e não se detêm no imobilismo museológico do registro folclórico.

UNE. Mesmo porque esse tipo de prospecção se inspirava no modelo de busca do “nacional” e da interlocução direta com o povo, segundo as ideias propagadas pelos Centros Populares de Cultura da UNE. Daí a procura, consciente ou não, das matrizes dinâmicas da cultura nacional, buscadas lá onde elas se encontravam: no sertão, nas favelas, nos estádios de futebol, na escola de samba.

Eram essas também as fontes do próprio Cinema Novo, quando fazia ficção. Basta lembrar onde se ambientam os principais filmes de Nelson Pereira dos Santos (Rio 40 Graus), Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol) e Ruy Guerra (Os Fuzis). Esses filmes produzidos por Farkas têm também a virtude de nos lembrar como o melhor cinema de ficção que se fez no País dialogou de forma íntima e contínua com o documentário.

QUEM É
Thomaz Farkas
Fotógrafo, produtor e documentarista

CV: Thomaz nasceu em Budapeste em 1924 e veio para o Brasil com 6 anos. É fotógrafo premiado e registrou imagens preciosas com sua Leica. Produziu os o longa Brasil Verdade e os filmes da Caravana Farkas.

DESTAQUES
l Subterrâneos do futebol
Maurice Capovilla analisa os bastidores do esporte mais popular do País. Fiel à época, procura destacar o caráter de alienação da torcida, que encontraria na paixão por seu clube preferido válvula de escape para as tensões da sociedade de classes. Mas o filme não esconde o gosto pelo futebol do próprio realizador.

Viramundo
Geraldo Sarno registra a migração nordestina em São Paulo, seus problemas de adaptação à cidade grande e a questão da religiosidade como escape.

Memória do Cangaço
Paulo Gil Soares, assistente de Glauber Rocha em Deus e o Diabo, entrevista o coronel José Rufino, que inspirou o personagem Antonio das Mortes.

(Caderno 2, 15/4/10)