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The Master, ou as contradições da América

Luiz Zanin Oricchio

03 de setembro de 2012 | 20h03

O outro filme muito esperado em Veneza, The Master, de Paul Thomas Anderson, foi um sucesso absoluto em sua primeira sessão. Muito aplaudido na projeção da manhã, ainda provocou cenas explícitas de tietagem, em especial aos seus protagonistas, Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix. No Lido, ator americano é rei, mesmo não sendo galã, como é o caso dos dois. Mas são talentosíssimos. E, de fato, o filme é ótimo. Compensou a expectativa.

O encontro dessa América larvar, que sai enriquecida e atônita da Segunda Guerra Mundial, é evocada através de dois homens. Um deles é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), soldado que volta da guerra estraçalhado, moral e fisicamente. Só encontra conforto no álcool, no sexo e na violência. Quer o destino que conheça uma alma gêmea e, por paradoxo, oposta, o mix de médico, cientista, filósofo e curandeiro Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman). Os dois entretecerão um relacionamento intenso, composto de fascínio e repulsa mútuas.
Esse será o cerne da trama, que evoca o início da Cientologia, crença abraçada por astros de Hollywood como Tom Cruise. Na entrevista, Paul Thomas Anderson confirmou que sua intenção era mesmo refazer as raízes a Cientologia, e que havia mostrado o filme a Cruise. Não quis revelar a reação do ator: “Isso fica entre nós”. Mas, pode-se especular que Cruse não tenha gostado de ver sua crença associada ao baixo curandeirismo praticado pelo personagem de Philip Seymour Hoffman. E também por sua mulher, vivida por Amy Adams, que tem papel bastante expressivo na história toda.
O filme é perturbador e não apenas pelos temas que aborda. Anderson adota uma narrativa bastante descontínua para os padrões caretas do cinema atual. O filme, digamos assim, é quebradiço, da mesma forma que o personagem de Joaquin Phoenix. É, talvez,  o trabalho mais corajoso do ator, aquele no qual se expõe de maneira completa, jogando com as imperfeições físicas como elementos de narrativa. É brilhante. E audaz como o próprio filme, um estudo agudo sobre o paradoxo da condição americana, sempre necessitada de um pai espiritual forte, que lhe diga o que fazer, ainda que viva sob o mito permanente da liberdade individual.
Pena que essas ideias não pudessem ser discutidas na coletiva de imprensa. A equipe chegou com ares de dona do mundo e favorita ao prêmio principal. Afora o esclarecimento sobre a Cientologia, Anderson não disse mais nada que prestasse. Phoenix, entediado, entrou mudo e saiu calado. Hoffman optou pelas gracinhas, no gênero clown espirituoso. Enfim, há pessoas que são muito melhores na tela do que ao vivo.

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