The Cleaners, os lixeiros das redes sociais
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

The Cleaners, os lixeiros das redes sociais

Redes sociais empregam nas Filipinas pessoas incumbidas de julgar o que pode permanecer no ar e o que deve ser removido

Luiz Zanin Oricchio

02 de abril de 2019 | 20h00

 

Moderadores: trabalho insalubre

Quem posta vídeos e fotos nas redes sociais talvez não saiba que está sendo monitorado em tempo real. Uma equipe de “limpadores” examina as postagens e decide o que fica ou deve ser apagado. É do que trata o documentário The Cleaners, de Hans Block e Moritz Riesewieck.

Na verdade, é um filme sobre os bastidores das redes, a vida e o trabalho dos “limpadores” digitais de imagens julgadas inconvenientes. Em dez horas de trabalho diário esses moderadores de internet chegam a ver até 25 mil imagens para decidir o que deve ser limado. Trabalho dos mais indigestos, diga-se, dada a qualidade do material a ser examinado, tais como imagens de pedofilia, violência, incitação ao suicídio, automutilação.

O curioso é verificar que gigantes como Google e Facebook contratam empresas filipinas para monitorar suas redes. O motivo não é difícil de adivinhar: a mão de obra é mais barata. São essas pessoas, que assinam contratos de anonimato e não podem dar entrevistas, que monitoram possíveis casos de exploração infantil e ameaças de terrorismo mundo afora.

Apesar da proibição, muitos falam. E dizem que, se o salário lhes permite viver, dificilmente compensa o ambiente tóxico a que são submetidos no dia a dia. Muitos são pessoas simples, homens e mulheres que se surpreendem com o conteúdo exposto nas redes. Uma das moderadoras diz que tem sonhos com pênis de cores e tamanhos diferentes a cada noite. E não se trata de sonhos eróticos. Pelo contrário.

Submetidos a carga imagética brutal, os moderadores têm poucos segundos para decidir o que fica e o que tem de ser apagado. Às vezes a decisão é difícil, pois fotos de interesse histórico não devem ser banidas. A arbitrariedade das decisões tenta ser evitada por manuais que indicam critérios de julgamento.

Mas a matéria é subjetiva: como decidir quais são as imagens comprometedoras e quais são as simplesmente apelativas, como separar as que denunciam violência das que incitam ao crime? A foto da menina nua atingida pelo napalm no Vietnã teria de ser banida? Uma pintura como A Origem do Mundo (1866), de Gustave Courbet, com um sexo feminino em primeiro plano, teria de ser apagada? Uma artista se queixa de que sua caricatura de Donald Trump, com o pênis (pequeno) exposto, foi censurada. Foi apagada por ser uma imagem debochada do presidente dos Estados Unidos ou por exibir um órgão sexual?

São decisões difíceis de tomar quando se está equilibrado na corda bamba entre a liberdade de expressão e a defesa da integridade dos frequentadores das redes e de outras pessoas.

Daí o número de absurdos que acontecem todos os dias, com o apagamento de imagens inocentes ou simplesmente artísticas.

E tal zelo pouco previne vazamentos de fato comprometedores. Basta lembrar os recentes atentados a mesquitas na Nova Zelândia, transmitidos numa live de 17 minutos filmada pelo próprio terrorista.

Se as discussões parecem infindáveis, por certo The Cleaners, uma co-produção Brasil-Alemanha, levanta um pouco o véu que cobre os procedimentos das redes sociais – onipresentes na vida contemporânea e cheias de mistérios para todos nós.

 

Tendências: