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Teza: o desencanto africano

Luiz Zanin Oricchio

24 de outubro de 2008 | 10h00

Com Teza, o diretor Haile Gerima faz um épico do seu país, a Etiópia. O filme competiu no Festival de Veneza e chegou a ser considerado um dos favoritos ao Leão de Ouro, o que acabou não se concretizando. Mas foi muito bem lembrado, saindo com o prêmio especial do júri e o de roteiro, escrito pelo próprio diretor. As razões do sucesso de Teza podem ser encontradas tanto na temática escolhida como na maneira de traduzi-la para a tela. É um filme político e se desdobra num tempo longo, através da memória de um personagem, Anberbe, da juventude à maturidade, passando pelo período de exílio, quando estuda medicina fora do seu país. De certo modo, é um filme démodé, como já não se vê por aí, um grande painel, um panorama compreensivo, um pouco à maneira de Novecento, de Bernardo Bertolucci.

Na abertura já se adivinha o caminho que vai se seguir. Um canto africano se sobrepõe a imagens de ídolos e depois a tela se tinge de vermelho, o sangue de um corpo. São imagens que evocam primeiro o enraizamento em uma cultura local; em seguida, a violência que parece marca registrada de alguns continentes e países. Em seguida, passa-se à recordação, porque tudo isso deverá atravessar a memória seletiva desse protagonista.

Anberber (vivido por Aaron Arefe, ótimo) recorda de como saiu do país, foi para a Alemanha estudar medicina e como voltou, caindo de cabeça no regime violento de Haile Mariam Mengistu. De certa maneira, ele refaz, de forma ficcional, o caminho do próprio diretor, que se transferiu para os Estados Unidos no final dos anos 60, depois de conhecer bem o que poderia ser a perseguição política e a falta de condições para realizar seu trabalho de maneira livre na Etiópia.

Teza é um filme muito bem pensado em seus elementos. O personagem de Anberber não é escolhido ao acaso. Ele sofre na pele a violência, vai viver em outro canto, assimila uma série de conhecimentos que julga poderem ser úteis ao seu país e retorna com eles na bagagem. Em entrevista, Haile Gerima disse que via no médico uma espécie de Prometeu, que rouba o fogo aos deuses para dá-los aos homens – e sofre as conseqüências do seu ato. O “fogo”, no caso, seria o conhecimento científico, adquirido junto aos europeus, os antigos colonizadores do continente africano. Esse fogo da sabedoria, aqui traduzido no saber prático da medicina, seria assim colocado a serviço dos antigos explorados, numa espécie de justiça poética se o destino dos homens fosse regido por um deus benigno.

Acontece que essa parábola não se dá sem graves contradições internas. A principal delas representada por um regime que não está nem um pouco interessado em qualquer tipo de modernização social, que vê como ameaça à sua sobrevivência e não como benefício para a população. Dessa maneira, o retorno de Anberber, esse Prometeu que é também um Ulisses, cairá rapidamente num ritmo intenso de desencanto.

O filme é essa reflexão sobre as condições de modernização de um país atrasado, mas também um balanço dos idealismos dos anos 60, quando Anberber e seus amigos sonhavam com a revolução marxista como solução possível dos problemas sociais. Tem esse lado de nostalgia, na maneira como é retratado o grupo de jovens idealistas em suas intermináveis discussões sobre o futuro da revolução africana. Mas é uma nostalgia sempre confrontada com a prova de realidade daquilo que efetivamente ocorre, da história real dos fatos, que muito poucas vezes corresponde aos sonhos juvenis.

Esteticamente, Teza é um filme de belas imagens, que sabe utilizar bem os contrastes entre a aura romântica do idealismo e a violência política que nega esse romantismo de maneira radical. Sabe também flutuar bem entre a vida pessoal do personagem e a trajetória histórica do país. Mostra como uma está em relação à outra e como uma pessoa pode não ser produto mecânico do seu meio social e do seu momento histórico, mas também não deixa de se influenciar por seu tempo e atuar sobre ele.

Serviço

Cine TAM 3 – Hoje, 19 h
Espaço Unibanco Pompéia 10 – Sáb., 16h20
Cine Bombril 1 – Dom., 21h50
Reserva Cult. 1 – 2.ª, 16h30

(Caderno 2, 24/10/08)

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