‘Testemunha Invisível’, thriller à italiana
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‘Testemunha Invisível’, thriller à italiana

Luiz Zanin Oricchio

30 de janeiro de 2020 | 14h28

Adriano Doria é um empresário de sucesso, mas encontra-se numa fria. Está sendo acusado de haver matado a amante num quarto de hotel. Nega. E sustenta que havia outro homem no aposento e este seria o responsável pelo crime. Não dispõe de provas. Mas tem dinheiro. Muito. E, por isso, pode se pagar um bom advogado. Que providencia uma mitológica auxiliar de defesa, uma veterana especialista em colher provas para o cliente e que nunca na vida perdeu um caso. Está para se aposentar. Doria é seu último cliente. 

Com essas informações começa Testemunha Invisível, thriller italiano dirigido por Stefano Mordini e estrelado pelo ótimo Riccardo Scamarcio. Ele interpreta Doria. Em liberdade, esperando julgamento, ele recebe em seu escritório a especialista Virginia Ferrara (Maria Paiato). Incisiva, ela lhe diz que seu caso é muito complicado. Só conseguirá safar-se se colocar na mesa toda a verdade. Todinha. Dispõe de três horas para isso.  

O filme se coloca nessa lógica de retrospecto. Dória contando a Virgínia tudo o que se passou, não apenas naquela noite fatídica, mas nas que a antecederam e o levaram a esse beco em aparência sem saída. Ela pergunta e questiona. Encontra pontos fracos na versão do cliente e exige dele a mais estrita sinceridade. Doria tergiversa, dá voltas, refaz a história. “O detalhe é tudo”, insiste Virginia. 

A trama é sólida – ainda que bastante enrolada. Joga o tempo todo com duplicidades como verdade-mentira, culpa-inocência e mutações de ponto de vista. A conversa entre Doria e Virginia é o centro gravitacional da trama, mas ela abre o leque para inúmeros flashbacks, reconstruindo fatos (ou versões) do passado e os remodelando e mesmo invertendo pontos de vista. Nesse sentido, lembra um pouco o clássico Rashomon, de Akira Kurosawa. Mas a origem de Testemunha Invisível não é tão nobre. É refilmagem do espanhol Contratempo, de Oriol Paulo (2016). 

Doria submete-se a essa advogada do diabo porque sabe que é sua última chance de sair livre. Seu caso é ruim e sua história não para em pé. Ele precisa de todo auxílio para montar um álibi verossímil. Mesmo porque o seu é aquele caso clássico de “crime no quarto fechado”. Ele acorda num quarto de hotel, fechado por dentro, com a mulher morta ao lado. Não há como entrar no recinto e a janela dá para um despenhadeiro inacessível pelo lado de fora. Tudo o incrimina. E, segundo Virginia, apareceu uma testemunha de última hora, que será usada pela acusação como trunfo definitivo. 

O caso boia na ambiguidade. Doria aparece ora como vilão ora como vítima de uma armação. O excelente Scamarcio dá conta da sutileza desses registros diferentes. Há a figura da amante, a envolvente fotógrafa Laura Vitale (Miriam Leone), também ambígua. Ora femme fatale, manipulatória e capaz de tomar iniciativa num momento crucial da trama, ora insegura e indefesa, vítima de relacionamento tóxico com um homem poderoso.

Onde estará a verdade?, é o que o filme se pergunta todo o tempo. E, se como dizia Nietzsche, a verdade mora no fundo de um poço, exigirá toda a concentração por parte do público para não se perder em sua teia de versões. 

Bem construído e bem filmado, Testemunha Invisível prende a atenção do espectador. Nada é como parece ser à primeira vista. Mas essa ambivalência, que num primeiro momento é sua força, pode ser sua fraqueza quando usada sem economia. De fato, o excesso de reviravoltas na trama acaba por torná-la um tanto confusa. E se você for olhar com lupa, há buracos lógicos nesse cipoal de versões e pontos de vista diferentes. Um certo retrogosto de artificialismo acaba por interferir no prazer de assistir a esse interessante thriller. 

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