Terror no Brasil
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Terror no Brasil

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2019 | 14h10

Nada mais simbólico do que o ano de 2019 terminar com um ato terrorista dirigido à produção cultural. 

Refiro-me, claro, aos coquetéis Molotov atirados na véspera do Natal contra a sede do grupo Porta dos Fundos, autor do filme A Primeira Tentação de Cristo, veiculado pela Netflix. 

Nem entro no valor da obra. Não interessa se é boa ou má, engraçada ou tediosa. Interessa a defesa da liberdade de expressão, garantida pela Constituição. Quem se sente ofendido com esse tipo de obra, ou a considera blasfema, tem uma atitude a tomar: não a veja. Não a recomende a amigos. Não veja outras obras do mesmo grupo. Cancele a assinatura da plataforma de streaming que a disponibiliza. 

Tudo isso é do jogo democrático. 

Mas, para variar, extrapolou-se. Tentou-se tirar o programa do ar, via judicial. A Justiça não entrou nessa. Percebeu que atravessaria o limite do constitucional e a liminar foi negada. 

Então entrou em ação o grupo de fanáticos e jogou os coquetéis Molotov na sede do grupo. A intenção é clara e comum a todo ato de terror: intimidar. Mandar o recado. “Cuidado: da próxima vez podem ser bombas ao invés de coquetéis Molotov e talvez jogadas em horário comercial”.

No primeiro momento, achei que a sociedade civil reagiu mal ao ato. Houve um certo silêncio, talvez de perplexidade, talvez de dúvida em como tratar de assunto tão delicado como o ressurgimento do terrorismo no país. Em plena vigência da democracia – ou do que dela resta.  

Não deveria haver surpresa. A violência política está no ar. O atentado é apenas sua “passagem ao ato”, como se diz em psicanálise. Depois de um ano inteiro em que a classe artística foi demonizada, escolas e universidades sucateadas, em que a inteligência foi desmerecida e ridicularizada, e a boçalidade frutificou em vários escalões da república, tudo estava pronto para um ato como este. 

Preparou-se este momento em que não basta às pessoas aderir a uma crença ou a conjunto de valores – é preciso impô-los aos outros. Nem que seja na marra. A fantasia teocrática está na raiz dessas atitudes violentas, e esses neo cruzados não vão se deter, a não ser que alguém o faça. E esse “alguém”, espero eu, seja o Estado. 

Um suposto grupo integralista assumiu o atentado. A polícia carioca, que investiga o crime, desafiando a semântica disse que o ato não pode ser classificado como “terrorista”. Será que o investigará com a mesma celeridade com que apura o assassinato de Marielle Franco? Enquanto isso, o guru bolsonarista da Virginia, declarou que o próprio ator Fábio Porchat, em conluio com um jornalista, seriam os autores do atentado. 

No momento em que escrevo essas linhas nem o presidente da república nem o ministro da justiça haviam se dignado sequer a comentar o fato. Quanto mais condená-lo. Por que será?