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Terras

Luiz Zanin Oricchio

29 de novembro de 2007 | 13h42

Foi minha mulher quem descobriu o erro: na matéria do Caderno 2 de hoje de balanço do Festival de Brasília (você pode ler no Portal do Estadão) escrevo que Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, se refere a Terra em Transe. Engano: o filme, como escrevi dezenas de vezes, é “sobre” A Idade da Terra – último e polêmico filme de Glauber Rocha.

Por que cometemos esses lapsos? Por distração ou cansaço? Claro, também por isso. Mas o velho Freud dizia que todo ato falho é, no fundo, um ato bem-sucedido. E mais ainda quando se trata de um lapso escrito que, em tese, é muito mais fácil de evitar do que os erros que cometemos quando falamos. A palavra escrita supõe um pouco mais de controle e distanciamento, que não temos quando estamos falando.

Glauber era fascinado pelo termo “Terra”. Devo lembrar que, além desses dois, ele também está no título de outra de suas obras-primas: Deus e o Diabo na Terra do Sol. A palavra é forte. Refere-se ao solo sobre o qual pisamos, onde nascemos e haveremos de morrer. Refere-se ao local de onde tiramos nosso sustento e também traz repercussões políticas porque sabemos que é mal dividida entre os homens. Poderia citar dezenas de títulos brasileiros com essa palavra: Terra Estrangeira, Terra para Rose, Terra dos Amores, Terra dos Índios, Terra é Sempre Terra, etc. O Festival de Manaus, que cobri há pouco para o jornal, foi aberto por um belo documentário ecológico chamado Earth. Tierra sin Pan é um dos meus Buñuel favoritos. E há um filme que está entre meus cults e parece um pouco esquecido: Terra, de Alexander Dovjenko, um dos ápices do cinema soviético.

Mas por que troquei A Idade da Terra por Terra em Transe? Não me parece difícil de entender. Por mais que Anabazys tenha me reaproximado de A Idade da Terra, é o outro, Terra em Transe, que me vem à cabeça quando penso em Glauber. Acho que em nenhuma outra obra o cinema se aproximou tanto do “real” brasileiro quanto em Terra em Transe. Portanto, quando falo em Glauber é nessa Terra que eu penso. Nesse tenso e dilacerado filme, que Nelson Rodrigues um dia definiu como “mais complicado que um ideograma chinês virado de cabeça para baixo”, mas que hoje se tornou cristalino. Se o Brasil está em alguma obra é em Terra em Transe. Daí a confusão. Pelo menos é minha hipótese.

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