Terra Deu Terra Come
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Terra Deu Terra Come

Luiz Zanin Oricchio

01 de outubro de 2010 | 19h24

Pedro de Almeida, ou Pedro de Alexia, conduz o ritual fúnebre de uma pessoa que – dizem – morreu com a idade de 120 anos. O enterro de João Batista, com todos os seus preparativos, serve de mote a um mergulho no imáginário sertanejo, conduzido por um personagem de sonho, o tal Pedro, que parece saído diretamente das páginas de Guimarães Rosa para a vida real. Quem teve a felicidade (e a arte) de filmá-lo em ação foi Rodrigo Siqueira, diretor de Terra Deu, Terra Come, um documentário que só pode ser definido como extraordinário.

O funeral serve a Pedro para, através do seu rico monólogo, refletir sobre a vida e morte, sobre a condição do homem e seus limites, sobre a vida no sertão, o garimpo, a busca da riqueza e da felicidade, a crença num outro mundo para além dos sentidos etc. Enfim, engendra, no verbo inspirado, toda uma uma cosmogonia do sertão, da mesma forma que o imaginário Riobaldo faz na obra-prima de Rosa, Grande Sertão: Veredas. Ao mesmo tempo em que Pedro se entrega ao cerimonial e sua fabulação, toda uma vertente do rito fúnebre sertanejo vem à luz, com seu choro das vizinhas, a presença das carpideiras, comentários jocosos em meio ao luto, danças e tradições, tudo isso que daria ao filme um caráter etnográfico – caso ele não se valesse de procedimentos que o fazem transbordar dos limites do campo observacional e invadir generosamente as margens da ficção.

Sim, porque, à sua maneira, Terra Deu, Terra Come entra na discussão contemporânea sobre os limites entre documentário e ficção. Há quem diga que se trata de assunto encerrado – os limites seriam mais do que flexíveis e fim de papo. No entanto, como esse tema exibe uma invejável capacidade de retorno ao debate, não parece de forma alguma fora de propósito colocá-lo em pauta ainda uma vez como faz o diretor Rodrigo Siqueira. O espectador verá que a maneira como isso é feito lhe parecerá bastante surpreendente e original, sobretudo no desfecho do filme.

Por outro lado, a aproximação de Terra Deu, Terra Come e seu personagem central com Riobaldo e Rosa não é gratuita. Ao se lembrar de suas aventuras de garimpeiro, Pedro lembra de um diamente precioso, desaparecido, e cogita se João Batista teria ou não feito um pacto com o diabo. O leitor de Rosa lembrará nessa ruminação a dúvida central, a angústia fundamental do protagonista de Grande Sertão: Veredas. Esse é o imaginário sertanejo, que o escritor recolheu em suas andanças e depois reelaborou em sua prosa de gênio. Esse imaginário está lá, entranhado, nos riachos e buritis das Gerais, qual pedra bruta. Siqueira o garimpou, mais uma vez.

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