As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tempos de Paz

Luiz Zanin Oricchio

19 de agosto de 2009 | 09h40

Quem acha a arte é inócua, ou apenas motivo para fofocas ou sensacionalismo, talvez faça bem em assistir a Tempos de Paz, filme de Daniel Filho adaptado da peça de Bosco Brasil. O enredo nos leva à fase final da 2ª Guerra Mundial, com a virtual vitória dos Aliados sobre os nazistas. Toda uma nova configuração do campo internacional se redesenha e, dentro dele, a do Brasil. O governo Vargas que, no início da guerra havia flertado com a Alemanha, terminou firmando pacto com os Aliados, na verdade uma troca de favores com os americanos. Realinha-se, assim, sem qualquer convicção ideológica, ao sabor da Realpolitik do momento. Ao vencedor, as batatas, como dizia um personagem de Machado de Assis.

Nesse contexto, chega ao Brasil o imigrante polonês Clausewitz (Dan Stulbach), que alega ter escapado dos nazistas durante o horror da guerra. Para ficar no Brasil, deve conseguir um visto, que terá de ser obtido com um funcionário do governo de Getúlio Vargas, Segismundo (Tony Ramos). Um fiel funcionário, aliás, que prestou seus bons serviços de torturador ao longo dos anos mais tenebrosos do Estado Novo. Como ficamos sabendo disso? Não só por alguns flashbacks, mas por sua própria boca. Tony Ramos e Dan Stulbach fizeram a peça também no teatro, com Tony revezando-se com Jairo Mattos.

É assim, com o orgulho de homem impiedoso, que Segismundo apresentará suas credenciais a Clausewitz. Ele conta algumas histórias do seu passado, com a finalidade de mostrar que tem mesmo coração de pedra. Uma delas, a mais terrível, inclui o diretor do filme, Daniel Filho, no papel de um médico, o dr. Penna, vítima de Segismundo no passado. Feitas as apresentações, Segismundo faz uma proposta a Clausewitz: se este conseguir contar uma passagem de sua vida e comovê-lo até as lágrimas, conseguirá seu visto de permanência. Caso contrário, será embarcado de novo e remetido à Europa, o que equivale a uma sentença de morte.

Está aqui, no embate entre os dois personagens, o cerne do filme. Que, claro, vindo do teatro, da peça cujo nome completo é Novas Diretrizes para Tempos de Paz, não nega sua origem cênica. Nem por isso se pode dizer que a origem teatral atrapalhe. Daniel negocia com habilidade o campo interno (o palco, pode-se dizer), onde se dá o diálogo entre os dois, e o “externo”, as referências de tempo e lugar que não estão contidas na ação presente. Mesmo “em cena”, a câmera é suficientemente hábil para fornecer ao espectador do cinema aquilo que o teatro em geral lhe nega: os closes dos rostos dos atores, os diferentes ângulos de visão, close das mãos, etc. Seria portanto mesquinho dizer que Tempos de Paz é teatro filmado. Não. É filme para valer, com origem teatral.

Tempos de Paz é reflexão sobre regimes totalitários e os efeitos que eles produzem sobre os homens. É também, e talvez principalmente, essa homenagem que se presta à arte em sua capacidade de humanizar e servir como barragem, sempre provisória, contra a barbárie. Em nosso caso particular, lembra também essa curiosa dialética do horror, ao citar os grandes homens que aqui vieram forçados pelo nazismo como Ziembinsky, Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld, entre outros. Através dessa diáspora forçada, foram os países americanos os que mais se beneficiaram com a violência e a insensatez do Velho Mundo. A paz lucra com a guerra, o que não é a menor das contradições.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.