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Diário de Veneza 2010: Tarantino evita falar sobre o Irã

Luiz Zanin Oricchio

01 de setembro de 2010 | 10h36

Veneza – O festival começou com a homenagem ao grande Vittorio Gassman, morto há dez anos, e logo caiu na real, com a coletiva de Quentin Tarantino na condição de presidente do júri e a apresentação do primeiro concorrente, Black Swan, do também norte-americano Darren Aronofsky. Aliás, é praxe que Veneza seja dominada, na semana inicial, pelas delegações dos Estados Unidos, que depois migram em grupo para o Festival de Toronto, que colide com o de Veneza e tem a fama de ser melhor para os negócios.

Não que Tarantino ou Aronofsky não tenham nada a dizer. Pelo contrário. Mas Quentin, por exemplo, quando lhe perguntam sobre a ausência forçada do cineasta iraniano Jafar Panahi, impedido de viajar pelo governo do seu país, poderia ter respondido algo melhor do que um omisso “não comento questões políticas”. Presente na entrevista, o diretor do festival, Marco Müller, foi mais incisivo, embora diplomático. Disse que já há 15 dias sabia que Panahi, “amigo pessoal há muitos e muitos anos”, estava impedido de viajar. Havia um motivo concreto para Panahi estar em Veneza – a exibição do seu filme The Acordion, um curta-metragem. Ele é figurinha carimbada dos festivais de primeiro escalão e venceu o Leão de Ouro com O Círculo, uma denúncia da opressão à mulher iraniana. Opositor de Ahmadinejad, Panahi não pôde vir porque responde a processo e essa condição o impede de deixar o país. E assim, entre artistas perseguidos por delito de ideias e mulheres condenadas à lapidação, o governo iraniano constroi sua notoriedade internacional.

O resto foi um pouco morno, como costumam ser essas entrevistas, mesmo porque ninguém conhece ainda os filmes e, assim, todas as perguntas soam um tanto abstratas, assim como as respostas. No entanto, mesmo falando em tese, uma coisa interessante que Tarantino falou foi que costumava escrever sobre os filmes que via, maneira, segundo ele de entendê-los melhor. E que a condição de jurado era uma oportunidade para se aprofundar nessa tarefa. O trabalho crítico é isso, pensar através da escrita; escrever para entender, muito mais do que para comunicar, ou ditar (para não usar outro termo) regra, como em geral se pensa.

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