Tarantino e o êxtase do cinéfilo
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Tarantino e o êxtase do cinéfilo

Luiz Zanin Oricchio

17 de maio de 2010 | 13h44

tarantino

Durante a Mostra de Cinema de São Paulo de 1992, apareceu como convidado um jovem americano meio desengonçado, que trazia na bagagem seu primeiro longa-metragem, um filme policial bastante esquisito. O novato estava ali, à disposição, mas poucos jornalistas se animaram a entrevistá-lo. Afinal, quem era ele? Pouco depois, o filme e seu criador estouravam no circuito cult mundial e Quentin Tarantino e seu Cães de Aluguel começavam a entrar para a história do cinema.

Dois anos depois, veio a consagração definitiva. Com seu segundo longa, Pulp Fiction, Tarantino ganhava a Palma de Ouro em Cannes, talvez o prêmio mais cobiçadado do chamado “cinema de arte”.

Desde então, fama e mito só fizeram crescer. Tarantino transformou-se em queridinho da crítica e passou a ser arroz de festa nos festivais mais badalados do mundo. No de Veneza, o mais antigo de todos, organizou em 2007 uma mostra do cinema B italiano. Podia ser visto nas sessões noturnas, apresentando aqueles velhos western spaghetti e conversando com as pessoas interessadas.

Quentin volta esse ano ao Lido de Veneza, agora na condição de presidente do júri que atribui o Leão de Ouro ao melhor filme. É honra reservada aos grandes artistas e ele, apesar de toda a polêmica em torno do seu nome, já passou ser considerado um dos mais influentes cineastas contemporâneos. Não apenas apenas pelo sentido inovador como recicla, no melhor estilo pós-moderno, material da cultura de massas, como pela atração que exerce sobre parcela do público, em especial sobre a juventude.

Apenas uma prova adicional: no Festival do Cine Sesc de São Paulo, que elege os melhores filmes a cada ano, um júri de críticos, agora renovado e predominantemente jovem, elegeu seu Bastardos Inglórios como vencedor de 2010, derrotando pesos-pesados como Clint Eastwood e Alain Resnais. É uma inegável demonstração de força.

Outro sinal respeitabilidade é a publicação do livro O Cinema de Quentin Tarantino (Papirus, 2010), de Mauro Baptista, doutor em cinema pela USP. Quentin chega assim à Universidade, e pela porta da frente, com um texto que disseca seus filmes de maneira sistemática e sofisticada. No prefácio de apresentação, o também crítico e ensaísta da Unicamp Fernão Pessoa Ramos, afirma como uma das virtudes principais de Baptista, “evitar os escolhos de uma visão conteudística, de viés ético/social, colocando-se (o autor) frente a frente com a história do cinema e, em particular, com o cinema de gênero afim de flexionar a visão que daí parte.”

De fato, desde que foi reconhecida como algo digno de nota, a cinematografia de Tarantino ganhou grandes espaços na mídia. No entanto, os textos sobre os filmes, de maneira geral, limitavam-se a descrever a superfíce das tramas, a graça de algumas situações, as citações, etc. Um ou outro destacava a maneira como o diretor se apropriava de materiais da cultura de massa para produzir algo de original, mas pouco de concreto sobre a maneira como retrabalhava esses ícones da cultura pop e, nesse liquidificador de referências, fazia o cinema avançar.

Baptista, pelo contrário, vai direto aos filmes e, armado de arsenal teórico que vai da teoria da política dos autores à classificação do cinema de gênero norte-americano, produz uma obra capaz de esclarecer e enriquecer a leitura dos filmes de Tarantino. Sugere que a essência do seu cinema não deve ser buscada nos temas que aborda, mas na sofisticada mise-en-scène que põe em prática. Manejando detalhes como o enquadramento e a profundidade de campo e foco, Baptista evita que seu texto sofra do excesso de tecnicismo que às vezes contamina a produção acadêmica (o livro é sua tese de doutorado, reescrita). Pelo contrário, o texto é claro, preciso e elucidativo.

Nos cinco capítulos do livro, o autor aborda desde o primeiro longa, Cães de Aluguel, até o mais recente Bastardos Inglórios (que ele considera a obra-prima do diretor), passando por Jackie Brown, Kil Bill 1 e 2 e mencionando alguns roteiros escritos por Tarantino e filmados por outros diretores, como À Prova de Morte, dirigido em parceria com Robert Rodrigues.

Entre outras constatações, destaca algumas formas de representação que dominam essa cinematografia inventiva, como o realismo do cotidiano, a agressão chocante e agressiva, o jogo. Aliás, esse lado lúdico de Tarantino, seu gosto pela paródia e pela imitação crítica (à maneira do primeiro Godard, o de Acossado) talvez seja responsável pelo prestígio que desfruta entre os jovens.

Mas é também muito pessoal a maneira como contamina explicitamente seu cinema da indústria do entretenimento, dos filmes B de Hollywood, do rock, do pop e da literatura barata. Mesmo em seu Bastardos Inglórios, ambientado durante a 2ª Guerra Mundial, Tarantino consegue reunir a herança do cinema hollywoodiano de gênero e parodiá-lo, de forma autoconsciente, naquilo que Baptista chama de “projeto de cinema pós-moderno para o futuro do século 21”.

O autor do livro fala em “êxtase de cinéfilo” ao ver este e outros filmes de Tarantino. De maneira geral, é o elemento que de fato encanta suas plateias. Como Tarantino filma muito bem, e com evidente prazer, esse “êxtase” se transfere dele para o público, numa espécie de “pulsão de cinema”. As razões estruturais desse êxito parecem claras na medida em que Tarantino, ele próprio um cinéfilo sem preconceitos, mantém em diálogo com as diversas camadas da experiência cinematográfica – das mais modestas às mais sutis.

No entanto, as consequências – éticas, políticas (ou apolíticas) — desse trabalho com de alta voltagem ainda precisam ser melhor analisadas. Podem ser considerações extra-fílmicas, como se diz no jargão do métier. Mas, ainda assim fazem parte do universo do cinema e lhe dão sentido. Claro, Tarantino não parece perder seu sono com esse tipo de preocupaçao. Nem seus exegetas.

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