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Tanta violência, tanta ternura

Luiz Zanin Oricchio

08 de dezembro de 2006 | 18h09

Acabei de assistir a um filme brasileiro na projeção privada para o júri. Não interessa qual seja esse filme, mas no final da sessão uma pessoa do júri comentou comigo, emocionada: “Que país, o seu!, tão violento, tão terno…” Talvez ela não soubesse mas estava citando, quase ipsis litteris, o verso de Mauro Faustino que Glauber coloca como epígrafe de Terra em Transe: “Tanta violência, mas tanta ternura.” Essa dubiedade parece a sina histórica de nossos países latinos. E, como sina histórica, não existe motivo nenhum para que deixe de ser assim algum dia. Mas, por enquanto…
Na van que nos conduziu de volta do Cine Infanta, em Centro Havana, onde estão sendo realizadas as projeções para o júri, tornamos a falar, não desse filme que acabávamos de ver, mas de outros. E assim Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, entrou na discussão. Todos eles amam o filme de Meirelles, e ficaram espantados, riram muito, quando lhe contei da interminável polêmica crítica que ocorreu no Brasil quando do seu lançamento. Riram mais quando lhes falei que até um seminário chamado Da Estética à Cosmética da Fome foi organizado para discutir as incidências desse filme sobre o novo cinema do Brasil. Enfim, é a questão, sempre presente entre nós, sobre o meio adequado de representar a miséria, a violência, ou ambas, sem estetizá-las, mas também sem escondê-las.
O Brasil é um país dilacerado, porém fascinante. É o que sinto sempre que converso com estrangeiros inteligentes. O mesmo se pode dizer em relação a Cuba. Acho que essa divisão entre o amor incondicional (portanto acrítico) e uma certa postura crítica em relação ao presente é um elo a mais que liga brasileiros e cubanos, que são povos irmãos – e a cada vez que venho a Cuba me convenço disto sempre mais e mais. No Brasil, é a questão social, a incrível desigualdade que está na base da violência de que todos nos queixamos – e inevitavelmente se expressa nos filmes brasileiros de conteúdo social.
Em Cuba, a questão é outra – o que fazer com o legado de uma revolução, como preservar o que se conquistou e ainda assim avançar? Por outro lado, a questão que mais dilacera os cubanos: construir a vida por aqui, ou ir-se, tentando uma existência melhor em outra parte? Já houve alguns filmes que exprimiram esse dilema doloroso e, de memória me lembro de La Vida es Silbar (A Vida é Assobiar) e Madagascar, ambos de Fernando Perez. Mas se pensarmos bem, a grande obra-prima do cinema cubano, Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, já tratava disso, lá atrás, ainda em 1968. Ou alguém que ame o cinema cubano esquecerá jamais o intelectual “burguês” vivido por Sergio Corrieri, e que não sai de sua ilha com a revolução, mas mesmo assim não consegue compreender o que está se passando ao seu redor?
Digo isso, porque há um filme cubano, em competição este ano, que coloca todas essas questões, e de forma clara, sem recurso de alegorias. Chama-se Páginas del Diario de Mauricio, de Manuel Pérez. Não entro em considerações estéticas sobre ele, porque está em concurso. Digo apenas que se trata de uma obra que, pela primeira vez, em linguagem popular e sem rodeios, coloca o dedo no dilema cubano: ir ou ficar? Deve render uma baita discussão por aqui. Não deixarei de acompanhá-la.

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