Tanta violência, mas tanta paixão…
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Tanta violência, mas tanta paixão…

Luiz Zanin Oricchio

11 de fevereiro de 2011 | 20h34

Não houve espaço no jornal, mas não poderia deixar de registrar, pelo menos no blog, a reestreia de Violência e Paixão (1974), uma das obras-primas de Luchino Visconti (1906-1976). Uma das últimas, aliás, porque depois ele realizaria apenas O Inocente.

Estava, portanto, já bem doente quando decide rodar essa reflexão de muitas facetas sobre a Itália que lhe era contemporânea. O que era esse país? Uma democracia, claro, mas que vivia sua crise econômica e enfrentava o desafio de combater a luta armada dos grupos radicais, dos quais o mais notório eram as Brigate Rosse (as Brigadas Vermelhas). O curioso é que, desse desafio político, saiu depois outro filme bem diferente, dirigido por outro grande mestre: Ensaio de Orquestra (1978), de Federico Fellini.
Visconti era nobre e rico. Era também comunista. Era um homem de cultura, que não podia deixar de sentir a sua civilização ameaçada por aquilo que vi. Ao mesmo tempo, não era conservador e não podia defender a manutenção do status quo. Tantas condições contraditórias produziram um artista de muitas faces – todas elas geniais.

Pode-se muito bem ver no personagem do Professor (Burt Lancaster, trabalhando pela segunda e última vez com Visconti, depois do seu papel como Príncipe Salina em O Leopardo) um provável alter ego do próprio Visconti. O personagem vive numa casa magnífica, em Roma, solitário e cercado de obras de arte. Em especial aquelas pinturas conhecidas como Conversation Pieces – que viria a ser o título do filme em inglês. São quadros de temática familiar, com os personagens dispostos de maneira informal, conversando, brincando, relacionando-se, gozando da companhia uns dos outros. Cenas de família, estudadas a fundo por um homem solitário, um viúvo que não tornou a se casar.

A paz do professor acaba quando ele resolve alugar o andar de cima para uma família das mais complicadas: a Marquesa Bianca Brumonti (Silvana Mangano) seu amante, Konrad (Helmut Berger), e os dois filhos da mulher, os jovens Lietta e Stefano. Konrad é um estroina, viciado no jogo, que se faz sustentar pela marquesa. Mas é também um apreciador de arte e parece envolvido em algum movimento revolucionário depois de ter participado do maio de 68 parisiense. O casal vive às turras. Há relações estranhas também entre Konrad e os filhos de Bianca. Além disso, os inquilinos resolvem promover uma reforma no apartamento, a tal ponto radical que por pouco não colocam abaixo o velho imóvel do Professor.

Quem assistir ao filme verá que ele coloca em evidência uma série de questões que deviam angustiar Visconti. A desordem promovida pela família do barulho era aquela que a esclerosada sociedade italiana enfrentava com seus radicais. Valia a pena arriscar a ordem pela aventura da mudança? Ou, invertendo: valeria a pena optar pela ordem quando talvez o novo trouxesse inconvenientes, mas significava também vida e mudança? Quem deseja a paz dos cemitérios?

Todas essas questões estão lá colocadas, incluindo as do envelhecimento e da perspectiva da morte. Elas são trabalhadas nos diálogos entre personagens e também visualmente. Exemplo: há um plano magnífico em que a câmera percorre as pinturas na parede da mansão até se encontrar com o personagem do Professor, que observa a rua através da janela aberta. Onde está a vida? Na paz do museu privado ou na desordem das ruas? Que o espectador forme seu próprio juízo, porque Visconti se limita a destacar problemas e nunca a dar soluções simples.

Essa obra-prima se encontra em cópia restaurada, no Cine Sesc. Vê-la nos leva a pensar naquilo que o cinema já foi capaz um dia. Para os que não moram em São Paulo: há uma excelente cópia em DVD, da Versátil.

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