Super Nada
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Super Nada

Luiz Zanin Oricchio

21 de março de 2013 | 09h01

 

O adjetivo para Super Nada, do cineasta e professor da USP Rubens Rewald é ‘surpreendente’. Pode-se ou não gostar do filme, mas não se pode acusá-lo de redundante ou pouco original. A surpresa começa com a escalação do elenco, na qual se vê o cantor de sambas Jair Rodrigues, que em priscas eras era chamado de “cachorrão”, e fazia parceria com Elis Regina no tempo do Fino da Bossa. Ele interpreta o papel de Zeca, ator que encarna o anti-herói Super Nada, do título. O outro personagem é Guto (Marat Descartes), ator de pequenos papéis, que sonha ser grande e faz todos os testes possíveis e imagináveis para ver se emplaca na profissão.

Rewald diz que Jair Rodrigues não era a sua ideia inicial para o papel de Zeca. Mas ao entrar no elenco, o cantor mudou por completo a concepção da história e do seu personagem. “Tornou-se mais popular, com outra entonação”, comenta o diretor. Bem, eis aí algo que os diretores em geral não admitem, que este ou aquele ator leva o seu projeto a direções diferentes. Em geral, tomam-se por demiurgos absolutos, esquecendo o caráter coletivo da fatura cinematográfica. Mas, é claro, cabe a eles dar o sentido geral da obra, sua direção e escolhas e estas incluem os atores. Que, por sua vez, modificam o projeto inicial, se tiverem alguma personalidade. E Jair Rodrigues, que não é ator profissional, tem a sua, sem qualquer dúvida. Portanto, alterou o projeto.

O que se pode e se deve dizer do filme de Rewald é que ele quase nunca caminha no sentido da expectativa do público. Surpreende, como se diz, tanto no enredo como nas opções de linguagem cinematográfica. É uma imersão no mundo dos pequenos artistas, dos espetáculos semiamadores que existem fora da grande cena das metrópoles e, talvez por sua condição marginal, abrigam o que de mais criativo nelas existe. É também uma reflexão sobre a arte, o envelhecimento do artista, o ridículo da vaidade do star system e coisas assim. Existe muito pensamento por trás de uma ação simples, porém jamais linear ou previsível. Filme para ver e rever.

 

 

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