Sudoeste, vento bravo
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Sudoeste, vento bravo

Luiz Zanin Oricchio

07 de dezembro de 2012 | 18h20

 

Antes de seu primeiro longa, Sudoeste, o diretor Eduardo Nunes, de Niterói, fez um curta de sucesso em festivais, Terral (1995). Há uma continuidade entre os dois projetos, separados por mais de dez anos de distância e um considerável amadurecimento do cineasta.

No entanto, nos dois existe a presença das coisas do mar, do vento, de um tempo que aparece em suspensão, juntamente com os personagens.

Em Sudoeste, o procedimento é radicalizado. Nunes parece ter assimilado mais influências – fala-se em Andrei Tarkovski e em Apichatpong Weerasethakul, mas o diálogo mais próximo talvez seja geograficamente também o mais vizinho. Pois parece evidente em Sudoeste a presença inspiradora do clássico Limite, de Mário Peixoto, filme mítico da fase muda, que durante muito tempo esteve presente no imaginário cinematográfico brasileiro apenas pela lenda, até ser restaurado e voltar à circulação.

Se em Limite o naufrágio das almas se dá num barco à deriva, em Sudoeste ele acontece em terra firme, num vilarejo onde não parece acontecer nada. Pelo menos para os poucos moradores, menos para Clarice (Simone Spoladore) que faz mais um dos seus grandes papéis no cinema. A sua Clarice é uma personagem com consciência diferente das demais, como se funcionasse em outra rotação, como se vivesse uma certa dissonância de percepção em relação às outras. Um intervalo, uma lacuna entre um ser e os outros.

Esse seria o conteúdo “dramático” de um filme que, por outra parte, coloca ênfase em seu aspecto sensorial e não numa narrativa que se reduziria às coisas que acontecem. Pouco acontece, de fato. Mas esse pouco, é o que se mostra, pode ser muito. Pode ser tudo.

A tela panorâmica, o registro (belíssimo) em preto e branco, o som – são esses elementos que se sobrepõem ao fiapo de narrativa proposto. Isso quer dizer que Sudoeste é uma obra que se entrega primeiro à percepção e em seguida à reflexão. Mas não num aspecto temporal, sequencial. Sua percepção é já o seu pensamento. Mesmo porque seu material de construção é o próprio tempo, com seus mistérios, seus paradoxos, sua inexorabilidade.

Sudoeste toca assim em questões cruciais, e com um grau de maturidade surpreendente. Expressa a confiança do autor na autonomia da imagem, capaz de sondar um mundo reflexivo e de sensações pouco explícitas.

Revela, por outro lado, a coragem de ousar num mercado cinematográfico nacional que se conformou com a mediocridade. É verdade que todo ano contabilizamos pelo menos alguns exemplares de bom e às vezes ótimo cinema em meio à enxurrada de comédias ligeiras ou pesadas que fazem sucesso de público. Nesse nicho das exceções é que Sudoeste terá de encontrar o seu público. Sabemos que não é fácil.

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