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Stella

Luiz Zanin Oricchio

11 de junho de 2009 | 21h19

Stella (Léora Barbara) é a garota que mora em cima do bar dos seus pais (Karole Rocher e Benjamin Biolay) no filme de Sylvie Verheyde. Verdade, não se trata exatamente do melhor lugar para viver o fim da infância, entre bêbados que cantam durante a madrugada e, ainda por cima, com pai e mãe instáveis, eles também chegados ao álcool e a uma certa promiscuidade. Sylvie, que com esse enredo (consta que semiautobiográfico) poderia comprazer-se no moralismo acusatório, trata tudo com muita suavidade. Prefere compreender os personagens a julgá-los e, com isso, seu trabalho ganha em qualidade.

Mesmo porque, a ideia do filme contempla a abertura de Stella a nova perspectiva quando conhece, na escola, uma garota chamada Gladys (Melissa Rodrigues), filha de imigrantes argentinos. A amizade com Gladys mostra a Stella um novo mundo, mais estável que o seu, no qual a leitura, por exemplo, ocupa uma posição muito importante. É o confronto, tratado de maneira nada artificial, entre o subproletariado da periferia parisiense e uma classe mais sofisticada do ponto de vista cultural.

Há também uma reflexão sobre a escola, já que boa parte do filme se passa em sala de aula, onde Stella, se não chega a ser uma criança-problema, mostra desempenho pouco satisfatório, muito em razão da vida que leva. O filme, em certa medida, entra na discussão da cultura multiétnica francesa, como outros trabalhos antes dele. É algo latente naquela sociedade e que pede discussão. No caso, é curioso que a família mais funcional seja a de estrangeiros e não a família francesa “pura”, que é a de Stella. É um comentário da diretora, sutil, sobre os preconceitos que colocam de modo automático a normalidade do lado dos nacionais e a exceção problemática nos que chegaram a essa sociedade e a ela não se adaptaram. Tudo no fundo é mais complexo.

Inclusive a vida da garota Stella, que precisa enfrentar o sempre problemático rito de passagem para a adolescência sob condições nada ideais. Mais uma vez: o mérito da diretora é não dramatizar problemas e nem evitá-los. Tudo o que acontece com a menina é mostrado, ou sugerido, por mais duro que seja. Nem por isso vira uma tragédia. O estilo do filme está em consonância com essa disposição mental – exibe leveza e frescor. E, sim, Léora Barbara é um achado e tanto.

(Caderno 2, 11/6/09)

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