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Spike Lee e o Katrina

Luiz Zanin Oricchio

03 de abril de 2007 | 10h25

Amigos, o canal HBO exibe hoje a primeira parte do documentário Quando os Diques se Romperam, de Spike Lee, sobre a devastação de New Orleans pelo furacão Katrina. Assisti ao filme de quatro horas e 15 minutos ano passado, em Veneza. Transcrevo o texto que escrevi então. As outras partes serão apresentadas pelo canal nos dias 10, 17 e 24/4. Abraços a todos e não percam pois o filme é impressionante.

VENEZA, Itália – Para Spike Lee não foi o furacão Katrina que causou tantas mortes e destruição em New Orleans, um ano atrás – foi a incúria e o descaso humanos. O desinteresse do governo está por trás do destino dos negros e dos pobres, que foram atingidos por uma catástrofe natural. Esse tom político domina o vasto documentário “When the Leeves Broke: a Réquiem in Four Acts” (Quando os Diques se Rompem: um Réquiem em Quatro Atos), com exatos 255 minutos de duração, ou seja 4 horas e 15 minutos.

Nesse tempo todo, Lee ouve a palavra de sobreviventes e de algumas autoridades (entre elas, o prefeito de New Orleans, mas também Bush e Condoleezza Rice). Mostra cenas impressionantes de devastação e não poupa o espectador das imagens mais duras de cadáveres boiando no rio ou decompondo-se à luz do dia. Ou seja, faz o trabalho sujo que as emissoras de televisão não fizeram na época, ou mesmo depois de tudo o que Aconteceu.

Previsões a meteorologia eram bem claras
Lee recorda que as previsões da meteorologia eram bem claras, o furacão que se aproximava tinha força máxima e nem por isso medidas de proteção foram tomadas com antecedência. Quando foram, já era tarde demais. Pelo menos para a parte da população que não tinha como fugir por conta própria, os pobres, velhos, os doentes. Esses foram ficando para trás e sofreram as conseqüências. Mostra também o durante e o depois, quando o socorro aos que ficaram ilhados não chegou a tempo, nem houve mantimentos ou remédios para todos que deles necessitavam. As cenas impressionam. Fora do contexto, pareceriam imagens vindas da África e não do país mais rico e poderoso do planeta.

“Essa é uma realidade que tomamos todo o cuidado de esquecer”, diz Spike Lee. “A América é o país mais poderoso do mundo, mas existe muita pobreza dentro dela, e há uma coisa que precisa ser dita com todas as palavras: Bush não tem o menor interesse por essa parte da população, seja ela branca ou preta” afirmou na entrevista concedida em Veneza.

Spike Lee disse que buscou realmente causar impacto político com esse filme. “O trabalho de reconstrução de New Orleans está todo ainda por ser feito; no ritmo que vai, não ficará concluído nem em dez anos”, disse.

Filme passou na rede de TV HBO no aniversário da catástofe
O filme foi exibido nos Estados Unidos dia 29 de agosto (quando se completou um ano do furacão) na rede de TV HBO e, segundo Lee, “causou grande embaraço a Bush e seu estafe”. “Espero mesmo que se sintam incomodados e acelerem os trabalhos de reconstrução da cidade.” Disse que, se pudesse, amarraria Bush e seu secretariado na cadeira e os obrigaria a ver aquelas imagens – “como naquela cena de ´A Laranja Mecânica´, de Kubrick”.

O diretor de “Faça a Coisa Certa” disse ainda que os estragos do Katrina, junto com o “fiasco no Iraque”, serviram para abrir os olhos da população americana para a realidade do governo Bush. “Acho que as pessoas se iludiram e reelegeram Bush na comoção do 11 de setembro e agora estão se dando conta do erro que cometeram”, disse.

As mais de quatro horas do filme se dedicam a mostrar exatamente a indignação dos moradores de New Orleans com o descaso do governo diante da catástrofe. Katrina assume uma função tristemente didática, ao mostrar com muita clareza o caráter classista do governo federal norte-americano. “Bush governa para quem tem conta bancária alta e não para a maioria da população”, denuncia o cineasta.

Cidade de Louis Armstrong e berço da música negra
“When the Leeves Broke” não apresenta apenas momentos de devastação e cenas tristes. Há toda uma enorme seqüência dedicada à fantástica cultura de New Orleans, um melting pot de influências negras, indígenas e européias.

É lá o berço da grande música negra e foi onde nasceu Louis Armstrong, um dos grandes músicos do século.

É lá que acontece o carnaval, o Mardi Gras, e onde as bandas acompanham os enterros com músicas tristes e voltam do cemitério tocando temas alegres. “Para mostrar que ficamos tristes porque a pessoa morreu e ao mesmo tempo estamos contentes e gratos por que a conhecemos em vida”, diz um dos personagens.

Essa tradição tem também o sentido de que a vida segue, apesar de tudo. Impossível assistir a esse filme sem se indignar com essa história de descaso e, ao mesmo tempo, sentir-se apaixonado por aquela cidade e a sua gente.