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Soy Cuba: um filme esquecido da Guerra Fria

Luiz Zanin Oricchio

02 de julho de 2007 | 16h38

Amigos, um visitante deste blog me pediu informações sobre Soy Cuba, filme do cineasta soviético Mikail Kalatosov. Como ele está disponível em DVD, achei que poderia interessar a todos e exumei um texto meu sobre o assunto, publicado no jornal. O texto fala também de um documentário, Soy Cuba – o Mamute Siberiano, que Vicente Ferraz fez a respeito dessa co-produção Cuba-URSS nos tempos da Guerra Fria.

Soy Cuba – O Mamute Siberiano, documentário de Vicente Ferraz, pode bem fazer a função de balanço das múltiplas recepções possíveis de uma obra segundo momentos históricos diferentes. O documentário de Ferraz é um filme sobre outro filme. Seu objeto é a “saga” de Soy Cuba, que o russo Mikail Kalatosov (de Quando Nascem as Cegonhas) filmou na ilha de Fidel no início dos anos 60.

Era um tempo em que a revolução cubana já havia se desentendido com os
Estados Unidos e pendia para o lado soviético, ficando em sua área de
influência num mundo dividido pela guerra fria. Assim, o filme funcionaria como uma espécie de “política da boa vizinhança” entre os dois países socialistas.

Para fazê-lo da melhor maneira possível, a União Soviética
mandou para a ilha seu cineasta mais famoso, equipamentos de ponta para a
época e um fotógrafo da pesada, Serguei Urushevski, técnico dotado de grande imaginação visual e capaz de realizar seqüências cinematográficas incomuns.

O filme de Kalatozov tem como tema a vitória da revolução cubana contra o
governo corrupto de Fulgêncio Batista, mas o que fica mesmo na retina são as cenas magníficas engendradas pelo fotógrafo russo.

Numa delas, registra-se o enterro de um estudante, morto em manifestação
contra o regime de Batista. O funeral transforma-se em ato político contra o governo e é registrado, do alto, com a câmera viajando por entre os prédios de Havana, entrando numa fábrica de charutos, saindo de novo para acompanhar por cima a multidão. Em outra cena, há o registro da “burguesia decadente” da era Batista bebendo em companhia de belas mulheres à beira da piscina do Hotel Capri – que pertencia à máfia americana e seria nacionalizado depois pela revolução. Aqui também há um longo plano-seqüência com a câmera acompanhando os personagens e finalmente “mergulhando” na água da piscina.

De tirar o fôlego de quem gosta do virtuosismo cinematográfico.
Há também uma longa seqüência em que uma mocinha cubana é tentada pela “vida fácil” num cabaré, acaba dormindo com um americano e é surpreendida pelo namorado, um vendedor de laranjas. Na hora em que o americano sai furtivamente da casa da moça, a câmera se ergue e então o espectador vê o entorno – uma favela miserável, com suas vielas e esgotos a céu aberto, mendigos e crianças doentes pelas ruas.

A “mensagem” é evidente – a exploração dos seres humanos só é possível nesse ambiente de miséria, fruto das “contradições do capitalismo”, como se dizia então.O tom do filme é todo assim, grandiloqüente, épico, demonstrativo. Por isso foi associado ao realismo soviético, a escola oficial do stalinismo, o que em parte explica seu destino depois de concluído.

No documentário sobre Soy Cuba, Vicente Ferraz entrevista sobreviventes
cubanos que participaram das filmagens, como o ator Sérgio Corrieri – famoso como protagonista da obra-prima do cinema cubano, Memórias do
Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea. Entrevista também o diretor do Icaic (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica), Alfredo
Guevara, e vários integrantes técnicos da equipe do filme. Os depoimentos
são importantes pois dão idéia da grandiosidade do projeto. Ficamos sabendo que as filmagens duraram 14 meses e mobilizaram grandes recursos da ilha,pois deveria ser um épico celebratório e portanto importante na luta de propaganda da guerra fria.

Para se ter idéia, para uma cena de batalha, Kalatozov solicitou nada menos do que 5 mil soldados, numa ambição de artista que faria inveja a Fellini. Fidel mandou vir esses soldados de Santiago de Cuba para a região de Havana e o deslocamento de tropas teve de ser comunicado à população para que ninguém pensasse que uma guerra tivera
início. Além disso, todo o extremo oriental da ilha ficou vulnerável
enquanto esses figurantes de luxo obedeciam às ordens do cineasta russo.

Mas nem esse esforço, nem o talento de Kalatozov ou de seu fotógrafo deram qualquer resultado prático. Quando o filme ficou pronto não comoveu ninguém. Nem em Cuba e nem na União Soviética. No documentário de Ferraz, vários dos cubanos envolvidos no projeto se queixam da “falta de autenticidade” de Soy Cuba. Como se Kalatozov, apesar da sua competência e da dedicação com que se entregou ao projeto, não tivesse sido capaz de captar o tom da coisa, o ritmo cubano, os tempos, o perfume do Caribe. Havia uma incompatibilidade básica entre a alma eslava, trágica, e a malemolência da ilha. O filme não “dava liga”, como se diz no métier cinematográfico a respeito desse tipo de obra que tem tudo para dar certo e mesmo assim não funciona.

Desse modo, Soy Cuba submergiu no esquecimento e tornou-se uma curiosidade exótica da indústria cinematográfica soviética. Consta que Kalatozov teria morrido, em 1973, ainda amargurado pelo fracasso de uma obra que lhe exigira tanta dedicação, tempo e energia.

Durante a guerra fria Soy Cuba não foi exibido nos Estados Unidos, é claro. Por ironia, saiu do limbo graças a dois cineastas norte-americanos, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, que promoveram a estréia do filme nos EUA em 1995 – 31 anos depois de ter fracassado nas telas do “socialismo real”. Hoje é tido na conta de um clássico e o espectador pode vê-lo em ótima cópia em DVD da Magnus Opus.

Há quem ainda o classifique como obra de propaganda, e Soy Cuba não deixa de ser isso também, assim como Outubro, de Sergei Eisenstein, ou It’s All True, de Orson Welles. Mas é como se o tempo depurasse esses filmes do seu conteúdo ideológico e deles deixasse apenas o que tinham de força e invenção formal. Quer dizer, justamente o que escapa da intenção política consciente: aquilo que fica por conta do talento e da imaginação subliminar do artista. Por isso, esses filmes são tudo, menos datados.

Essa “atualidade” da obra fica evidente no documentário de Vicente Ferraz. Nesse nosso tempo de neutralidade ideológica (quem acredita numa ameaça comunista, fora os conservadores paranóicos?), filmes como Soy Cuba podem ressurgir e serem apreciados com mais imparcialidade. Se em muitos pontos ele envelheceu, exibe ainda momentos de grande cinema. E são esses que ficam.

Não deixa de ser uma boa idéia chamar de Mamute Siberiano a este
documentário sobre um filme clássico, mas insuficientemente apreciado como Soy Cuba. De fato, quem vê o filme de Kalatozov experimenta sentimentos contraditórios. Se for cinéfilo, sente admiração, sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, vive algum desconforto diante de uma obra fora do seu tempo, grandiosa e desajeitada, como se supõe fossem esses animais pré-históricos.

Ninguém sabe muito bem por que motivo certas obras deixam de repercutir em seu tempo, caem no limbo da história e, mais tarde, como por milagre, são redescobertas e apreciadas. O filme de Vicente Ferraz apresenta um trabalho de arqueologia e, ao mesmo tempo, fornece pistas para entendermos o que se passou com Soy Cuba. De certa forma, é uma lição de história política e da cultura.

Mostra-nos como se concebe uma obra como esforço de guerra. O tempo era de guerra fria e, no enfrentamento entre União Soviética e Estados Unidos, Cuba ocupava posição estratégica. Para a União Soviética, Cuba era a linha avançada do regime no Ocidente. Para os Estados Unidos, um amigo do rival, implantado em seu “quintal”, a cem milhas da Flórida. Basta lembrar que esse contencioso quase levou o mundo à breca na histórica crise dos mísseis, em 1962.

A idéia dos produtores era refazer uma épica da revolução a partir do regime anterior ao dos barbudos, o de Fulgêncio Batista. Desvendar, como se dizia, as condições de exploração de um povo, de um país transformado em cassino e bordel pelos vizinhos ricos. Tudo isso está no filme de Kalatozov. E como Vicente Ferraz o interpreta? Ouvindo pessoas que participaram dele. Ou seja, que viviam na Cuba já revolucionária e falavam da Cuba anterior.

Eram pessoas, portanto, refazendo a sua própria história, como povo. O
documentarista as entrevista. Entre elas, o ator Sergio Corrieri, famoso
protagonista de um clássico do cinema latino-americano, Memórias do
Subdesenvolvimento. Corrieri fala do filme, mas não se lembrava de ter
participado dele como ator. Como se esquece uma coisa dessas?

Outros se referem ao filme de maneira um tanto depreciativa. Descrevem a
recepção do público quando foi lançado: indiferença tanto na ilha como na
União Soviética. Ora, um filme feito justamente para celebrar a amizade
entre esses dois povos, sendo recebido com tal frieza. Que prova maior de um fracasso do que essa? E, no entanto, essas mesmas pessoas, quando hoje sabem que aquele velho filme se transformou em objeto de um documentário, acabam por reavaliá-lo.

O fato é que essa peça política, que deveria funcionar não só como laço entre dois países, mas propaganda de um tipo de regime, não funcionou devido ao seu caráter híbrido. Tanto esforço de Kalatozov e sua equipe, tantos cubanos envolvidos nesse projeto, e não se conseguiu fazer
dele uma fusão de sotaques e estilos como se desejava. O internacionalismo comunista nesse caso não deu certo e todos se sentiram estranhos a uma obra grandiosa porém pouco amigável. Foi preciso o trabalho do tempo para que fosse reassimilada e portanto reinterpretada.

E, nesse sentido, o depoimento mais agudo, o mais lúcido, aquele que
desvenda o segredo íntimo de um filme fracassado, talvez seja o de Alfredo Guevara (sem parentesco com o Che), diretor do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos.Diz Guevara que, na época em que Soy Cuba poderia significar alguma coisa,foi ignorado; agora, quando não assusta mais ninguém, pode virar objeto de culto num museu da história do cinema. Como um animal pré-histórico.

(Estadão, Caderno 2, 12/1/2006)

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