Sonhos Roubados
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Sonhos Roubados

Luiz Zanin Oricchio

23 de abril de 2010 | 09h52

sonhos

O tema é urgente – a exploração sexual de adolescentes que vivem na periferia. Sandra Werneck o trata por meio das histórias de três dessas jovens, Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias).

Sandra é conhecida como diretora de filmes românticos como Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis. Mas também é a documentarista de A Guerra dos Meninos, Ritos de Passagem, Damas da Noite, entre outros. Em Sonhos Roubados parece desejar a síntese dessas duas vertentes da sua carreira – o romance e a fome de real. Mas a mistura não dá liga. Mesmo porque o romance avança sobre o documento e deixa pouco espaço para o que talvez fosse uma desejável e desejada imersão no real.

Não é que o filme não contemple situações “realistas” da assim chamada difícil vida fácil das adolescentes. Há algumas até bem cruas. Mas o tom geral é pouco convincente, travado por um certo didatismo cheio de boas intenções, aquele bom-mocismo típico dos filmes-ONG. A obviedade, que começa no roteiro e termina na filmagem, se expressa na reiteração, pelas palavras, daquilo que a imagem parece não dar conta.

Enfim, é um filme atravancado pela “mensagem” que deseja passar ao espectador. A mise-em-scène assume, desse modo, o estilo de uma professora que zela para que sua lição (o filme) seja bem assimilada pela classe (o público). Os recursos pedagógicos são os clássicos: a exposição de situações exemplares (as vidas das garotas), a eliminação de situações dúbias que dificultariam a aprendizagem, a repetição periódica dos pontos-chave que devem ser assimilados e uma conclusão final de tudo o que foi exposto anteriormente.

É preciso dizer que essa linearidade expositiva tira toda a força que, potencialmente, estaria contida nas histórias individuais das garotas desde que essas fossem tratadas de maneira mais humana, isto é, contraditória. A clareza (mas também a superficialidade) da trama reforça no público a certeza de que há aí um débito social importante, e que parte da juventude brasileira pode estar se extraviando porque exposta a um meio social pouco acolhedor, em todos os sentidos. Ok. Isso sabemos. Mas era lícito esperar mais do que já sabemos e sentimos.

Mesmo porque há méritos inegáveis no filme. Do elenco muito bom e homogêneo (as meninas estão ótimas e Nelson Xavier, como avô de uma delas, é brilhante) à fotografia documental de Walter Carvalho qualidades não faltam. Mas estas acabam ficando em segundo plano diante de uma concepção geral da história muito fraca. O cinema é também “cosa mentale”, como dizia Leonardo Da Vinci da pintura. Pensa, e não apenas sente. Ou deveria pensar, para sentir melhor.

(Caderno 2, 23/4/10)

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