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Solo, de Ugo Giorgetti

Luiz Zanin Oricchio

31 de outubro de 2009 | 11h29

Solo é o nome do novo filme de Ugo Giorgetti. Seco assim, descreve o que nele faz o grande ator Antonio Abujamra: um monólogo, encarando a câmera o tempo todo, com algumas poucas imagens de arquivo que se desenham às suas costas. É um filme da fala. E da expressão corporal, que faz parte do mundo dos sinais e da linguagem. Giorgetti, que é colunista do Estado, tem outro filme na mostra, a ficção Paredes Nuas.

O texto é do próprio Ugo e se pode dizer que gravita em torno de um motivo: o estranhamento do personagem em relação a si e ao mundo que o cerca. O início do monólogo faz o espectador entrar de chofre nesse universo. O que ele diz? Que um dia, ao vestir a meia, olha para o próprio pé e não o reconhece. O corpo envelheceu; deformou-se e, com ele, o pé.

A constatação dá início a uma rememoração, que flutua ao sabor das conexões mais inesperadas, como as associações livres que se fazem num divã de analista. Uma ideia leva a outra, inocentemente, e o todo – se é que é possível falar-se em todo – emerge de um mosaico em aparência caótico.

Esse homem, esse velho que não se reconhece e nem ao seu meio ambiente, é, de certa forma, uma memória da cidade, e do País. Deduz-se que seja filho de uma família aristocrática, ou pelo menos de classe alta, que assistiu à degradação paulistana ano após ano. Nota de passagem: é um tema caro a Giorgetti, que o desenvolveu no documentário Uma Outra Cidade, em que falava dos poetas da geração de Roberto Piva e de como o Centro já foi uma a área de respiração cultural em São Paulo. Depois, retomou o tema do estranhamento em relação à cidade na ficção de O Príncipe, o homem que volta do exterior e reencontra (ou não) suas raízes.

Solo é mais um passo nessa “pesquisa” – se assim chamarmos o trabalho do artista no aprofundamento em si mesmo. Aqui, há um concentrado desse tema pela situação proposta: personagem único, cenário praticamente imutável, a fala livre sob a forma do monólogo, que não passa de um debate interminável consigo mesmo.

É curioso como nesses filmes citados, e também em Solo, a exasperação com a vida contemporânea não conduza ao sentimento estéril da nostalgia. Não seria mesmo o caso de sentir saudades das aspirações exclusivistas do personagem, mas apenas registrar a sensação de caos que o presente desperta. Ninguém precisa ser um velho aristocrata para senti-lo.

(Caderno 2, 31/10/09)

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