‘Solaris’ na Cinemateca Brasileira
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‘Solaris’ na Cinemateca Brasileira

Luiz Zanin Oricchio

28 Novembro 2016 | 16h02

solaris

Domingo à noite fui ver Solaris na Cinemateca. O filme de Andrei Tarkovski encerrava a terceira Mostra Mosfilm, dedicada ao cinema russo. Telão, sessão ao vivo um pouco perturbada pela chuva miúda que começou a cair e não parou. Atrapalhou, mas não estragou a sessão, acompanhada por um bom público, encantado com o que via na tela. Havia muitos jovens e também uma boa parcela de coroas. Não sei quantos estavam vendo o filme pela primeira vez. Quantos o reviam ou, como era o meu caso, o reviam na tela grande depois de muitos e muitos anos assistindo a essa obra-prima da ficção científica em vídeo e depois em DVD.

Posso dizer que o encanto continua idêntico, do primeiro fotograma ao magnífico plano final, um dos maiores da história do cinema. Nele, Tarkovski resume a história e nos insinua o quanto somos dependentes da nossa memória. E o quanto esta é função mais do nosso desejo que de recordações “objetivas”. É o fundo filosófico da obra, expresso de maneira visual e que, acredito, necessita de uma tela grande para ser fruído e compreendido em sua integridade. No final, aplausos do público para este filme de exceção.

solaris na cinemateca

No entanto, a aceitação popular de Solaris nem sempre foi boa. O filme era considerado lento demais, com diálogos abstratos, planos sequência muito longos, passagens enigmáticas e desfecho misterioso. O crítico norte-americano Roger Ebert conta como foi complicada a aceitação de Solaris em seu país, com sua preferência por um cinema, digamos, mais “objetivo”. Muito embora Kubrick tenha feito de 2001 – uma Odisseia no Espaço um espetáculo cinematográfico, porém de fundo especulativo. Mas esse é gênio.

Já a opção de Tarkovski é francamente pela metafísica. Tira a essência do romance do polonês Stanislaw Lem e a utiliza em sua meditação sobre algumas questões humanas e filosóficas.

A história é conhecida. Um psicólogo, Dr. Kris Kelvin (Donatas Banionis), é mandado para uma estação espacial que orbita o planeta Solaris, coberto por um imenso oceano. Coisas estranhas se passam na plataforma. Ao chegar, Kris descobre que um dos tripulantes, seu amigo pessoal, se suicidara. Os dois remanescentes comportam-se de maneira esquisita. Dizem que na estação aparecem “visitantes”. Seriam fantasmas? O próprio Kris recebe a mais surpreendente (e agradável) dessas visitas – uma mulher linda (Natalya Bondarchuk), clone de sua esposa, Hari, morta dez antes. O oceano de Solaris dá forma física aos desejos e lembranças dos tripulantes.

O relacionamento de Kelvin com a mulher é paradoxal. Ela é e não é Hari. Não é mas não deixa de ser. Não se lembra do passado, não morre e, quando ferida, se regenera. Na verdade é múltipla. Uma pode sumir e outras reaparecem. Mas não é uma imagem, uma simples alucinação; é mais que isso, é formada de carne e osso. E talvez paixão. Um dos ocupantes da plataforma adverte Kelvin: “Cuidado, quanto mais ela convive com você, mais humana fica”. E, quando Kelvin diz que a mulher está dormindo, o outro se assusta: “Ela já aprendeu a dormir”. O clima de mistério e suspense se adensa. Mas não é um suspense feito de sustos e nem de climas de medo; é a inquietação latente de algumas perguntas incômodas.

No caso: nos apaixonamos por uma pessoa ou por uma imagem dessa pessoa? Ou mesmo pelo conceito dessa pessoa. E como distinguir uma coisa da outra, se é que é possível ou desejável? Queremos esquecer os mortos, ou viver em sua lembrança? Vendo Solaris, lembrei-me de Um Corpo que Cai, de Hitchcock, com o personagem de James Stewart tentando reencontrar na mulher que conhecera na rua (Kim Novak) o seu amor desaparecido (Madeleine, a própria Kim). Como se sabe, ele “trabalha” na imagem da segunda até que se torne idêntica à primeira. É um dos grandes momentos amorosos do cinema aquele em que Stewart, depois de fazer Novak vestir a roupa certa, pintar os cabelos e penteá-los de certa maneira, reencontra a sua Madeleine morta. A imagem é a sua madeleine, agora já no sentido proustiano.

Da mesma forma intensa e emocionante é quando Kelvin reencontra na estação orbital a sua Hari, morta dez anos antes. Os argumentos dos outros, de que não se trata de Hari, mas de um artifício, uma espécie de pegadinha metafísica do planeta Solaris, não são suficientes para fazê-lo desistir da mulher pela segunda vez. Mesmo que se trate de ilusão, ou contrafação, ou do que quer que seja.  

Grande filme, grandes questões. O cineasta pensa através do cinema. E convida o público a acompanhá-lo em suas em suas dúvidas, inquietações e especulações.

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