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Sol do Meio Dia: cinema à flor da pele

Luiz Zanin Oricchio

28 de setembro de 2010 | 20h13

Eliane Caffé sempre foi boa diretora. Mas talvez faltasse a seus filmes anteriores – Kenoma e Narradores de Javé – a intensidade que se encontra neste O Sol do Meio Dia. Encontrou o tom. Ou pelo menos, um tom. O seu, talvez. O desenho dos personagens é mais nítido, a fotografia trabalha a serviço da narrativa, tudo, enfim, faz sentido. Mais importante: sente-se a tensão, os desejos, as frustrações e alegrias inscritos na pele mesma dos atores, em seus rostos. É o encontro da diretora com um cinema corpóreo, mais físico e sensorial.

O filme, primeiro, é o encontro entre dois homens de personalidades opostas. Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) é visto na saída de uma prisão – não se conhece seu crime. Matuim (Chico Diaz) é um encrenqueiro, tipo burlesco, que usa uma estranha peruca. Artur quer se embrenhar no Brasil, talvez para esquecer o que lhe vai pela consciência. Matuim, com a morte do pai, vê-se dono de uma decadente embarcação na qual viaja pela Amazônia. Os dois se unem pelo acaso. Como é pelo acaso que conhecem uma mulher, Ciara (Claudia Assunção), que dá novo impulso (e rumo) à narrativa.

Boa parte do filme é consumida na viagem através da Amazônia. Há o calor, a precariedade, os conflitos pessoais e o encontro com contrabandistas para complicar as coisas. Matuim dá à ação tom humorístico e ao mesmo tempo dramático, dualidade que só um grande ator como Chico Diaz é capaz de sustentar. De Vasconcelos vem a profundidade trágica quando se revelam os motivos da sua prisão. Vem de Ciara o toque maior de solidariedade, um gesto final que empresta humanidade à história. Não se sabe como será recebido num país de mentalidade tão punitiva quanto o Brasil atual. Mas nenhum filme tem obrigação de partilhar ou endossar a moral média. É possível até que tenha de afrontar a mentalidade dominante para vir a ser grande.

(Caderno 2, 26/9/10)

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