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Sociedade machista não dá bola para as mulheres

Luiz Zanin Oricchio

01 de julho de 2007 | 10h13

Há muitas maneiras de apontar a discriminação contra a mulher nos países islâmicos, e Jafar Panahi escolheu uma das mais originais, apelando para a paixão universal pelo futebol. Fora de Jogo conta a pequena história de um grupo de garotas que queria assistir a uma partida da seleção do Irã pelas eliminatórias da Copa do Mundo. E qual o problema? Problema imenso, pois as torcedoras não podem entrar no estádio, tido como ‘lugar de homem’. Não é que sejam desaconselhadas, o que já seria absurdo. São impedidas por força da lei.

O filme põe em cena um grupo de meninas que resolve desafiar a legislação antiquada e entrar no estádio de qualquer jeito. Pela força? Não porque elas não a tem. Precisa ser no jeitinho. E só encontram um caminho, disfarçar-se de homens.

Eis aí o enredo mínimo desse filme simpático, levemente crítico, e a favor de uma liberalização maior do regime dos aiatolás. Claro, há uma série de desenvolvimentos nessa história que, de tão pequena, daria apenas um curta-metragem se não fossem algumas variações sobre o tema. Variações que, por mais bem sacadas que de fato sejam, não se mostram capazes de fornecer organicidade a uma idéia de tiro curto.

O clima é aquele que se conhece do cinema iraniano típico, desde que ele passou a ser divulgado no Ocidente no início dos anos 1990. Temos uma mistura de inocência e malícia, com personagens que falam o tempo todo e não parecem entender-se entre si. Há uma curiosa relação entre os homens, que são aqueles que realmente dominam e controlam o país, e os ‘outros’, ou seja, crianças e mulheres.

Você pode ver aí uma situação literal e outra figurada. De fato, as crianças são tuteladas, protegidas, e não apitam em nada. O mesmo se pode dizer em relação às mulheres. Por outro lado, se pode pensar que nem mesmo os homens comuns podem ter voz muito ativa nesse tipo de regime, a não ser que façam parte da hierarquia do Estado. A distribuição do poder é muito assimétrica e os ‘outros’ da sociedade tendem a ser vistos como incapazes, irresponsáveis, inaptos para decidir sobre seu próprio destino.

Não por acaso, as crianças foram personagens tão importantes como freqüentes nos primeiros filmes iranianos que chegavam até nós. Mais do que uma preocupação com a infância, essa escolha de personagens infantis reflete uma estratégia dos cineastas. Críticos distraídos costumam dizer que os filmes iranianos só falam em criancinhas sem se dar conta desse expediente dos artistas em uma sociedade vigiada.

Assim, as crianças estavam no centro de vários daqueles filmes e, em especial, num do próprio Panahi, o excelente Balão Branco. Mais tarde, Panahi voltou seu olhar para as mulheres no contundente O Círculo, vencedor do Festival de Cinema de Veneza, um dos três mais importantes do mundo.

Em seguida, veio um filme atípico em sua filmografia, Ouro Carmim, um caso policial contado em flash-back e sem nenhum dos elementos anteriores. Trata-se apenas da história de um entregador de pizzas obeso, que um dia cede à tentação do crime e paga caro por isso. Nessa história policial, contada com ritmo atípico para o diretor, temos um corte vertical – e cirúrgico – da sociedade urbana de Teerã.

Quer dizer, qualquer que seja a temática adotada, ou a linguagem escolhida, Panahi não renuncia jamais em dar um sentido social à sua obra. Dadas as circunstâncias em que trabalha, parece uma disposição heróica, beneficiada, é verdade, pela proteção proporcionada por prêmios em festivais de ponta e portanto reconhecimento internacional.

Com Fora de Jogo a disposição não é diferente. Como quem não quer nada, Panahi vai mostrando os problemas mais graves da sociedade iraniana. E, também, insuspeitos laços de solidariedade entre pessoas que, em tese, estariam em campos opostos. Tudo iria muito bem não fosse uma certa impressão de cansaço sugerida pelo filme. Talvez a fórmula já tenha se desgastado um pouco e Panahi devesse dar um passo, ou vários, à frente.

(Estadão, Caderno 2, 29/6/07)

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