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Sobre Orfeu

Luiz Zanin Oricchio

06 de abril de 2008 | 10h02

Algumas pessoas comentaram a respeito de Orfeu Negro, de Marcel Camus. Eu também não morro de amores pelo filme. Agora, ele tem uma fama internacional impressionante. Foi o que constatei quando pesquisava para escrever meu livro Cinema de Novo – um Balanço Crítico da Retomada (Editora Estação Liberdade, 2003). Eis aí um trechinho sobre Orfeu.

Quando se escreve sobre esse tema (filmes ambientados nas favelas) não se deve esquecer que, antes do Cinema Novo, a favela foi objeto de certa idealização, de uma estetização da pobreza, como parece ser o caso do filme perdido de Humberto Mauro, Favela dos Meus Amores, e como certamente é o de Orfeu do Carnaval, obra mítica, dirigida pelo francês Marcel Camus, e ganhadora do Festival de Cannes e do Oscar de produção estrangeira de 1959.

Camus adaptou para o cinema a peça de Vinícius de Morais, Orfeu da Conceição, que encena o mito de Orfeu e Eurídice nos morros cariocas. Com música de Antonio Carlos Jobim e bonita fotografia em technicolor, o filme mostra um Rio de Janeiro de cartão postal, onde as pessoas sambam nos bondes e nas barcas, cantam, dançam, se amam e são felizes. Macumba para turista, foi o mínimo que se disse dessa obra, no entanto amorosa para com o Brasil, e que correu mundo, sendo famosa até hoje.

Encontram-se referências a Orfeu do Carnaval nos lugares mais inesperados, como nas linhas de um romance japonês recém-traduzido Diário de um Velho Louco, de Kanizaki, quando uma personagem se refere ao ator Breno Mello, ex-jogador de futebol, que viveu o papel-título com devoção e talento mediano. Ou no filme de Spike Lee, A Huey P. Newton Story, de 2001, sobre um dos fundadores do grupo Panteras Negras. A certa altura, Newton, interpretado por Roger Guenveur Smith, refere-se ao Orfeu do Carnaval como um marco, a melhor coisa que havia visto no cinema. Elogia, enfaticamente, a sequência em que Orfeu ensina a um garoto a arte da música, entendendo que ela significa a transmissão da cultura negra de geração para geração.

Marcel Camus gostava tanto do Brasil que voltou duas vezes para filmar aqui. A primeira foi em 1960, logo depois do lançamento de Orfeu. O novo projeto chamava-se Os Bandeirantes e foi rodado em cidades nordestinas, Manaus e Brasília. Na história, escrita por ele mesmo, um garimpeiro traído por dois amigos trama vingança. O filme foi um fracasso absoluto. Dezesseis anos depois, voltou para realizar Otália da Bahia, com roteiro baseado em Os Pastores da Noite, de Jorge Amado. Rodou em Salvador e novamente foi acusado de edulcorar o real brasileiro. Defendeu-se dizendo, com certa razão, que não seria ele, um francês, a pessoa adequada para apontar as misérias da sociedade brasileira.

Um dado curioso – e humano – mostra como o fascínio de Marcel Camus pelo Brasil ia além do registro cinematográfico. Ele se apaixonou e acabou se casando com a atriz Lourdes de Oliveira, que representava a noiva ciumenta de Orfeu. Acabado o trabalho no Brasil, Camus levou Lourdes para a França, onde tiveram dois filhos. Há quem diga que esse casamento foi a forma de Camus unir-se, simbolicamente, a um país adorado, cujo retrato não se cansava de retocar quando não correspondia à realidade por ele idealizada.

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