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Sobre o liberalismo e suas ilusões

Luiz Zanin Oricchio

03 de junho de 2008 | 17h19

O post anterior, sobre futebol, motivou uma discussão legal sobre liberdades individuais. Longe de mim defender restrições à liberdade de ir e vir das pessoas. Isso é sagrado. Mas, enfim, a sociedade também tem o direito de regular as atividades e instituições que a compõem.

Ela faz isso o tempo todo, quer percebamos, quer não. Determinadas atividades são incentivadas, outras não, de acordo com as necessidades de determinado país e em determinado momento. Dá-se incentivo, inclusive fiscal, para ocupação de áreas pouco povoadas, por exemplo.

É fácil migrar para países que estejam precisando de mão de obra. Por outro lado, tente entrar em um país com dificuldades para empregar a própria população – provavelmente você não será bem recebido. That’s life.

O ir e vir dos boleiros patrícios não está em questão. O que está em questão é o sucateamento da atividade que eles praticam, causada por este êxodo contínuo. Há que tentar conciliar uma coisa com a outra. Já pensou se houvesse uma migração em massa de médicos e professores, por exemplo? Quem educaria nossos filhos ou cuidaria de nossas doenças? Um governo que não tomasse medidas nessa situação hipotética seria chamado de irresponsável.

Chama-se a isso regulação e nada tem de antidemocrática ou contrária às liberdades individuais. Somente leva em conta o fato de que ninguém é uma ilha e que uma pessoa só encontra expressão de sua individualidade no convívio com os outros. Proteger o indivíduo e sua livre expressão significa, também, proteger os direitos da comunidade da qual ele faz parte.Comunidade na qual ele emergiu e somente na qual faz sentido enquanto indivíduo. Pensar a liberdade do indivíduo enquanto ser isolado, uma espécie de Robinson Crusoé moderno, não passa de uma abstração.

Outro ponto: ninguém acredita em Papai Noel para achar que Blatter encontra-se preocupado conosco. Simplesmente, ele parece farejar algum perigo para o futuro do futebol-negócio caso a descaracterização do futebol europeu continue, com a chegada de levas de imigrantes. E, em especial, pode temer pelo futuro do grande negócio da Fifa, o negócio bilionário entre todos – a Copa do Mundo. Esta se baseia na rivalidade simbólica entre nações. Se esta rivalidade desaparece, ou mesmo enfraquece, o que pode acontecer? É esse o seu verdadeiro pesadelo.

Não deixa de ser um paradoxo interessante. A mais globalizada das atividades, o futebol, precisa de sentimentos tribais e nacionalistas para funcionar e gerar lucros.

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