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Sobre Ariano Suassuna: aproveitando o comentário alheio

Luiz Zanin Oricchio

26 Abril 2007 | 11h51

Meu amigo Lúcio Vilar, cineasta e professor de cinema em João Pessoa, deixou um comentário tão bom sobre O Senhor do Castelo, que passou aqui no Fest Recife, que não resisti à tentação de transcrevê-lo na cabeça do blog para que vocês o leiam. O Senhor do Castelo é um documentário sobre Ariano Suassuna. Com a palavra o Lúcio:

“Caro Zanin,
Vejo como um
desafio filmar Ariano. O privilégio de tê-lo sob o foco pode revelar-se uma operação de altíssimo risco, dada a dimensão do personagem a ser documentado. Ora, o criador de João Grilo & Chicó tem sua dramaturgia amplamente reconhecida e legitimada pelos palcos, tevês e cinema brasileiros. O paraibano nascido no Palácio da Redenção já habita por assim dizer o panteão dos homens-mito. Em vida, diga-se.

Onde estaria o risco? Em ser engolido pelo personagem, ficando este acima do filme. Eis o desafio de Marcus Vilar em seu primeiro longa-metragem – “O Senhor do Castelo”.

Convém inferir que a construção da estética (planos, enquadramentos, externas, etc), mais parece obedecer ao rigor de um roteiro ficcional. A fotografia tem esmerado cuidado técnico, enche os olhos do espectador, tal a plasticidade do flagrante rural da cavalgada em Taperoá, por exemplo, vista pela janela de uma casa de taipa.

A trilha é discreta, o instrumental intercala falas e imagens, na medida certa. Ao final, ganha fôlego mais solto na voz do maestro Erivan Araújo, entoando um mantra “épico-sertanejo”. A sensação é que assistimos a um média-metragem. A costura do roteiro promove uma fluidez que embala o espectador entre belas passagens de Taperoá e Recife, flashes de uma aula-espetáculo, infância, formação literária e a esposa Zélia.

O timing é dado pelo personagem em sua incomum habilidade para falar de si mesmo, refletindo com isso sobre o DNA da cultura nordestina e o discurso da resistência. A platéia aplaude e pede bis, pois o diretor transforma o risco em coragem afirmativa.

Reitera e mitifica uma imagem ainda mais soberana do “senhor do Castelo”, afinal, diz ele: “Existem dois tipos de pessoas no mundo, as que concordam comigo… e as equivocadas!”. Talvez resida aí o único “senão” ao filme, sua pegada hagiográfica.

No mais, assistimos a maturidade do melhor cineasta de sua geração. Merece ser visto, especialmente por adolescentes e jovens. Aliás, o poder público deveria transformar o produto em instrumento didático-pedagógico. Prestaria um serviço à educação na Parahyba e à perpetuação da memória de um ícone.”