Sobras de guerra: pensando além do episódio do Leblon
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Sobras de guerra: pensando além do episódio do Leblon

Homens e mulheres de bem têm a missão de manter um padrão mínimo de civilidade para reconstruir o país quando a guerra política terminar

Luiz Zanin Oricchio

23 de dezembro de 2015 | 13h32

chico

Um dia essa guerra política vai ter fim. Mesmo porque já se detecta cansaço na sociedade, e uma nação não consegue viver indefinidamente com uma metade odiando a outra.

Seja qual for o desfecho (impeachment, Dilma terminando o mandato, oposição retomando o poder, etc) há que se pensar, desde já, na reconstrução a ser feita com as sobras de guerra.

Episódios como os de Mantega sendo hostilizado em um hospital, e Alexandre Padilha em um restaurante, já foram superados por outro, a meu ver de dimensão diferente. Desta vez não é um político, ou membro do governo, a sofrer bullying, mas um artista popular como Chico Buarque de Holanda.

Há algo de diferente no ar. E não cheira bem. Claro, todo mundo é livre para pensar o que bem quer, apoiar quem deseja e criticar quem acha que não deveria estar no comando do país. Mas o que autoriza um grupo a abordar um artista na rua, provocá-lo e depreciá-lo pelas posições políticas que sustenta?

Há, repito, um passinho a mais nesse tipo de atitude, que vai da mera divergência de ideias à disposição de esculachar publicamente quem se encontra em campo oposto. Mesmo, e talvez principalmente, se esse alguém for uma pessoa pública, como é o caso de Chico Buarque.

Nesse caso, creio que não há exagero em dizer que existem fagulhas pré-fascistas no ar. Digo “pré”, com absoluto senso de economia. Não estou querendo comparar a atitude de meia dúzia de playboys do Leblon com um desfile de camisas-negras na Itália fascista ou na Alemanha nazista. Apenas insinuo que a mesma disposição agressiva contra o “Outro” os aproxima. Há ainda um caminho a andar entre uma coisa e outra, mas as setas já estão apontadas nessa direção.

fascio

O episódio, em si, é pequeno e seria irrelevante, não fosse sua carga simbólica. Nesse sentido, passa a ser preocupante. Detecta e expressa um sentimento de violência latente em setores da sociedade, um desejo de destruir o oponente, ou no mínimo agredir. As palavras são usadas não como instrumentos de diálogo, mas como armas para ferir. Daí ao insulto e ao desforço físico, há apenas um passo. Regredimos.

E, nesse ambiente regressivo, entendo que homens e mulheres de bem têm uma missão a cumprir neste momento: o de manter a firmeza de ideias, a serenidade e o nível da discussão. Não apenas para que o ambiente não se degrade ainda mais, mas para que tenhamos algum espaço comum de diálogo, ainda que mínimo, quando a guerra terminar.

São sobre escombros que poderemos, talvez, reconstruir um país atualmente desagregado.

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