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Singularidades de uma Rapariga Loira

Luiz Zanin Oricchio

13 de maio de 2011 | 09h52

A estrutura do jogo, aliás, do filme, remete ao Buñuel de Esse Obscuro Objeto do Desejo. A confissão, em um trem, de um estranho caso amoroso. Na, digamos assim, epígrafe da obra, uma constatação: fala-se melhor com um desconhecido do que com a pessoa mais íntima. No caso, o protagonista, Macário (Ricardo Trepa), se confessa à sua companheira de viagem interpretada por Leonor Silveira. Conta-lhe de suas venturas e desventuras com a tal rapariga loira do título (Catarina Wallenstein).

A história é inspirada em Eça de Queiroz. Macário é empregado do tio em um pequeno negócio de tecidos. Apaixona-se pela imagem de uma moça que vê na janela em frente. Ela porta sempre um objeto fetiche: um leque chinês ornado da figura de um dragão. Conhece-a. O tio opõe-se ao casamento e ele deve fazer fortuna sozinho, em Cabo Verde. A história que Macário conta a Leonor Silveira no trem, ele avisa, não terá final feliz. Mas há muitos caminhos para se encontrar tanto a felicidade como a desgraça, e este, narrado por Oliveira, é dos mais singulares. Como a rapariga loira do título.

Singularidades é um filme sobre o desejo, sem dúvida. Não sobre o desejo explícito, mas sobre a maneira como ele se disfarça e se dissimula para melhor se expressar. Atrás de leques, de cortinas transparentes, mirando-se em espelhos ou em segundos planos muito significativos. O trabalho de câmera e fotografia é magnífico. Explora o ambiente, os quadros na parede, os objetos, fazendo-os falar. Oliveira usa a profundidade de campo como poucos. Cada plano é um quadro, uma pintura, plena de expressão e de significados. Poderia citar dezenas de pontos de diálogo com as artes plásticas, mas basta dizer que a concepção visual do filme lembra as telas de Holbein (Os Embaixadores), com seu detalhismo expressivo e hiperrealista.

Há também o tempo. Singularidades, com meros 63 minutos de duração, é um exercício de síntese. Uma síntese paradoxal. Com tanta coisa para dizer, Oliveira gasta quase cinco minutos no início, mostrando o fiscal do trem perfurar os bilhetes de todos os passageiros do vagão antes que a conversa entre Leonor Silveira e Ricardo Trepa se inicie. Desperdício? Não. Nesse nosso mundo sôfrego e desprovido de sentido, Manoel revela o que é ser um mestre do tempo. Ele impõe esse prólogo lento e depois será seco, rápido e brutal no desfecho – como o espectador irá ver. Não é preciso se apressar e nem se demorar. Tudo tem a sua justa duração.

Aos 102 anos, Manoel de Oliveira, prestes a aventurar-se no universo de Machado de Assis, é um dos mais jovens cineastas em atividade no mundo.

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