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Sinal amarelo para o futebol brasileiro

Luiz Zanin Oricchio

30 Maio 2007 | 11h44

Amigos, minha coluna de ontem no Esportes do Estadão:

Em rara unanimidade, os cadernos de Esportes destacaram a má qualidade do clássico entre São Paulo e Palmeiras. Ruindade que não poderia ter outro resultado senão o 0x0. Não que um 0x0 tenha necessariamente de ser um péssimo jogo. Uma partida pode muito bem terminar sem gols e ter sido emocionante, com belas jogadas de ataque, defesas milagrosas, duelos táticos, etc. Mas quando um jogo é ruim de fato, como foi este São Paulo e Palmeiras, só há um resultado condizente, um inexpressivo empate sem gols. Para a obra ficar perfeita.

Devemos tirar grandes conclusões a partir de um único jogo? Claro que não e talvez (tomara) esse Campeonato Brasileiro nos reserve ainda muita beleza e emoção nas partidas que veremos ao longo do ano. Mas poderíamos, talvez, aproveitar a oportunidade desse clássico malogrado e acender uma luzinha amarela para o futebol brasileiro. Não estou nem pedindo luz vermelha; a amarela já serve. Sinal de alerta, nada mais.

Afinal, estavam em campo dois grandes entre os grandes do futebol brasileiro, dois rivais paulistas que, mesmo combalidos, contam em seus elencos com algumas das poucas estrelas ainda disponíveis no País: Edmundo e Valdívia de um lado, Rogério Ceni e Dagoberto de outro. Mas, em 22 que começaram o jogo, são esses os craques? Só esses? Então não precisamos procurar muito para encontrar a causa, ou uma delas, da ruindade do jogo. Podemos também somar a falta de jogadores realmente bons à postura cautelosa dos técnicos, que, convenhamos, têm lá suas razões. Muricy não podia perder, pois anda já sentindo o cheiro da fritura. Já Caio Jr. parece bastante consciente das limitações do elenco e sabe que com ele não pode cometer loucuras.

Assim, a ‘prudência tática’ predominou, junto com a falta de recursos técnicos. Azar do torcedor, pelo menos daquele tipo de aficionado que gosta de ver um futebol bem jogado. Por isso é bom a gente não se iludir com números enganosos, como média alta de gols no Brasileirão. Se número de gols fosse um critério absoluto, futebol de praia seria o máximo.

O fato é que, bem observado, o futebol brasileiro já se ressente, no plano técnico, da falta de uma política para o setor. Ele anda ao deus-dará. O laissez-faire do modelo exportador de pé-de-obra já produz estragos na qualidade técnica e até mesmo no estilo brasileiro de jogar. Como essa história de futebol-arte começa a fazer parte do passado, os técnicos, que têm de preservar seus empregos, são obrigados a optar por sistemas menos criativos, e tornam-se adeptos do futebol burocrático e fechado. É um estilo de jogo que está se diluindo, uma antiga e grande escola de futebol que está fechando as portas.

E não deixa de haver aí uma melancólica ironia da história. Foram os europeus que inventaram os sistemas mais fechados, um tipo de marcação capaz de anular o talento sul-americano. Depois descobriram que muito mais negócio era comprar o talento alheio em vez de anulá-lo. Quer dizer, nós exportamos craques e importamos sistemas de jogo rígidos. Será que fazemos uma boa troca?

Agora, vejo que a CBF relaciona oito jogadores que atuam no País em sua pré-convocação para a Copa América. Quer dizer, além de não cuidar do futebol praticado no Brasil, ainda desfalca clubes e prejudica o campeonato que ela mesma organiza. Como dizia o grande Mazzaropi, se não é para ajudar, pelo menos não estorva, sô!