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Simonal: o triste fim do rei da pilantragem

Luiz Zanin Oricchio

10 de julho de 2008 | 22h19

PAULÍNIA

O filme mais aplaudido até agora em Paulínia foi um documentário – Simonal, Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Cavito Leal, que encantou a platéia do Theatro Municipal da cidade. O filme conta a história do cantor Wilson Simonal, um artista superpopular no final dos anos 60, até cair em desgraça por causa de um episódio obscuro em sua vida.


No auge da fama, Wilson Simonal desentendeu-se com seu contador, Raphael Viviani e mandou dar-lhe uma surra. Acontece que quem se incumbiu do serviço foram agentes do temível Dops, a polícia de ordem política e social, responsável por prisões e torturas na época do regime militar. No desdobramento do caso, outro agente afirmou que Simonal era informante da polícia política. O cantor enfrentou processo na justiça e foi execrado no meio artístico. Sua carreira praticamente acabou. Não conseguia mais gravar, exibir-se, fazer shows. Decaiu. Passou a beber de maneira frenética e morreu em 2000, de cirrose hepática, sem ter sido reabilitado.

O documentário é muito inventivo – e esse é o primeiro dos seus méritos. Seleciona trechos significativos de apresentações de Simonal, usa técnicas de animação em alguns momentos, faz uma coleta pequena porém bem selecionada de depoimentos. Ouve os dois filhos do artista – os músicos Simoninha e Max de Castro, Miéle, além de pessoas que conviveram com ele como o apresentador Miéle, o jornalista Nelson Motta, o cartunista Jaguar, o historiador de música Ricardo Cravo Albim, o contrabaixista Sabá, o humorista Chico Anysio, o crítico Sérgio Cabral, o ex-jogador Pelé. Ouve a crítica teatral Bárbara Heliodora, em cuja casa a mãe de Simonal trabalhava como empregada doméstica. E, principalmente, dá voz ao desafeto do artista, o contador Raphael Viviani.

A segunda de suas virtudes é traçar um retrato bastante fiel do cantor de grandes recursos (fez até dueto com Sarah Vaughan cantando Fly me to the Moon) que se tornou um entertainmer como não houve outro em seu tempo. Simonal inventou um jeito de reciclar melodias populares num estilo cheio de ginga, que chamava de “pilantragem”. Ele, e o trio que o acompanhava, o Som 3, do qual fazia parte Sabá, aplicavam um molho todo especial a canções ingênuas como Meu Limão, meu Limoeiro e faziam a galera bailar. Com domínio total do palco, Simonal regia a platéia e botava-a para cantar. Tinha o auditório na mão. Ficou famosa a noite em que fez 30 mil pessoas cantarem com ele no Maracanãzinho.

Simonal era um raro caso de músico-cantor. Diziam que tinha ouvido absoluto, era dono de uma bela voz e um senso de divisão rítmica privilegiado. Poderia ter ido muito longe em sua arte, mas optou por um caminho mais fácil de comunicação com o público. Era dotado para isso também. Criou para si a persona do malandro carioca, inventor de gírias, bon vivant, mulherengo, esperto. Chegou a ter três Mercedes na garagem – e isso não se perdoa num país que costuma disfarçar seu racismo sob o mito da democracia racial. Isso era mais visível ainda nos anos 60 e 70 – nos casos desses negros que “não conheciam seu lugar”, como o próprio Simonal ou Paulo César Caju.

Mas – e esta é outra virtude do filme, sem a qual ele não ficaria tão bom – o documentário não cai na tentação de se tornar uma hagiografia de um injustiçado. Verdade, o bom-mocismo brasileiro tende a absolver tudo, em especial quando o personagem já morreu. Mesmo assim, há suficiente ambivalência para permitir ao espectador tirar suas próprias conclusões. Simonal nada tinha de santo. Em meio a uma ditadura feroz era, no mínimo, um indiferente político. Mas muita coisa sugere que tenha sido mais. Há o depoimento de Viviani. E, depois do caso, o próprio Simonal afirmava que “estava com os homens”. Pode ter sido apenas um inocente útil. Mas, naquela época, ter uma “carteirinha do Dops” abria muitas portas. No mínimo, brincou com fogo. “Vacilou”, para usar uma gíria de sua lavra.

O que se pode dizer é que, um caso desses, com seu desdobramento trágico, e culpas de ambas as partes, só poderia ter acontecido durante uma ditadura. Numa democracia, não faria o menor sentido.

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