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Simonal: ninguém sabe o duro que dei

Luiz Zanin Oricchio

14 de maio de 2009 | 09h10

É evidente que, num documentário sobre Wilson Simonal, a questão sobre se foi ou não informante da polícia política acabe ficando em primeiro plano. Mas é bom dizer, desde logo, que Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Cavito Leal, vai além desse julgamento da posteridade.

É, antes de tudo, um filme bem pensado e bem montado. Traz trechos das apresentações ao vivo de Simonal, úteis para quem não o conheceu, emocionantes para quem viveu aquele tempo. Vendo as imagens, não há mistificação possível: Simonal foi um entertainer sem igual. Acompanhado pelo trio Som 3, comandava a galera do jeito que bem entendia. Seu ápice foi reger o Maracanãzinho lotado, 30 mil pessoas que obedeciam ao seu comando e faziam coro com ele. É brilhante.

Mas – e isso também o filme mostra – essa facilidade de comunicação talvez tenha sido uma armadilha. Simonal era muito talentoso e dotado, do ponto de vista musical. Dizem que tinha ouvido absoluto, pegava as melodias no ar e dispunha, em seu arsenal de cantor, de um sentido de divisão rítmica impecável. Tinha bela voz. Cantou – sem passar vergonha, ao contrário – em dueto com a diva norte-americana Sarah Vaughan. Um The Shadow of Your Smile de antologia. Com seus dotes, poderia ter optado por um caminho artístico de alto nível. Escolheu embalar auditórios ao som de canções ingênuas como Meu Limão, Meu Limoeiro, ou maliciosas como Mamãe Passou Açúcar em Mim. Ganhou, claro, muito dinheiro com isso. E também desafetos. Tinha três Mercedes-Benz na garagem, saía com loiras e mantinha o nariz em pé. Isso não se perdoa em país que disfarça a discriminação sob o engodo da democracia racial.

Há que balançar todos esses fatores. E, mesmo assim, como saber do caráter de um biografado? Pelas imagens, mas também pelos depoimentos. O filme ouve vários personagens: os dois filhos, Max de Castro e Simoninha; Nelson Motta, Jaguar, Ricardo Cravo Albim, Chico Anysio, Sérgio Cabral, Pelé, entre outros. Entrevista também Raphael Viviani, o contador que acusa Simonal de haver se utilizado de sua amizade com policiais para prendê-lo e torturá-lo. A acusação, grave em qualquer época, o é, e, ainda mais, durante uma ditadura.

Sobra, dessas vozes e imagens, ambiguidade suficiente para que o espectador tire suas conclusões. E esse talvez seja o maior mérito do filme.

(Caderno 2, 15/5/09)

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